terça-feira, 24 de abril de 2012

Baú da Gesteira: Mais um caso de Longevidade (3)

A 10 de Junho de 1735 faleceu na Guímera (couto de Cadima) Manuel da Costa. O seu registo de óbito, na página 134 do livro de óbitos de Cadima (1609-1766) é o seguinte:



"Aos dez dias do mes de Junho do anno de mil setesentos e trinta e sinco faleceo no lugar de Guimera Manoel da Costa com todos os sacramentos; foi enterrado dentro desta igreja; fez Testamento, e dizia ter sento e doze annos, ou mais alguma couza, e por verd.e fiz este termo, q asignei no tempo s.a
V.o Joseph de Oliv.ra"

Manuel da Costa, da Guímera, tinha, de facto, 113 anos quando faleceu, tendo sido batizado em 26 de abril de 1622, filho de João da Costa e Isabel Lopes, moradores na Guímera. Este foi um dos gandareses de maior longevidade.

























quarta-feira, 4 de abril de 2012

Baú da Gesteira: Mais um caso de Longevidade (2)

Fui então pesquisar um pouco sobre o Baptista Fernandes Escuro:

Parentes:
A crer pelos assentos de batismo, casamento e óbito, Baptista Fernandes Escuro deveria ser filho de António Fernandes Escuro e de Maria Antónia (ou Maria Jorge), e terá nascido no lugar de Água Doce, tendo sido batizado em 7 de outubro de 1630. Foram padrinhos Baptista, solteiro, filho de Pedro Fernandes e Isabel Gonçalves, moradores na Ribeira da Fervença.
Teria portanto 87 anos na data da sua morte (5 de janeiro de 1718), e não os 117 indicados no assento de óbito. Um valor mesmo assim assinalável, mas bem mais plausível.

Continuando...

Baptista teve pelo menos 5 irmãos:
- Domingos (n. 1610- f. 1636), nascido no Escoural;
- Maria (n. 1620 - ?), nascida na Água Doce;
- Catarina (n. 1623 - ?), nascida na Água Doce;
- António (n. 1627 - ?), nascido na Fervença;
- Ana (n. 1633 - ?), nascida na Água Doce.

Pode-se concluir que os seus pais, António e Maria, moraram no Escoural, no lugar de Água Doce e na Fervença. Água Doce deverá ser um local junto à Fervença, ou mais concretamente na Ribeira da Fervença (aceitam-se informações mais precisas sobre o local que também é referido como Água Doce da Ribeira da Fervença).

Baptista Fernandes foi casado com Isabel Francisca (ou Isabel Antónia), e tiveram pelo menos os seguintes filhos (7):
- Manuel, nascido em 1654, na Ribeira (Fervença);
- António, nascido em  1660, na Fervença;
- António, nascido em 1670, na Ribeira da Fervença;
- Ascenso, nascido em 1673, no Ribeiro da Fervença;
- criança sem nome, nascido em 1677, na Fervença;
- Maria Fernandes, data de nascimento desconhecida, casou em 1684, na Fervença;
- Madalena Baptista, data de nascimento desconhecida, casou em 1705, na Gesteira;


Isabel Francisca faleceu em 16 de novembro de 1682.

Depois, Baptista Fernandes casou em segundas núpcias com Isabel dos Santos, tiveram pelo menos os seguintes filhos (4):
- Mariana, nascida em 1686, no Ribeiro da Fervença;
- António, nascido em 1690, na Fervença;
- Teresa, nascida em 1692, na Fervença;
- Isabel dos Santos, nascida em 1695, na Fervença;

Sendo assim, o nosso herói (Batista, Baptista ou Bautista) faleceu com 87 anos, teve pelo menos 11 filhos de 2 casamentos, nasceu na Fervença (lugar de Água Doce) e sempre viveu na Fervença. Aqui está um pouco da história do senhor Escuro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Baú da Gesteira: Mais um caso de longevidade

Estávamos em 1718, devia fazer frio logo no início do ano, quando na Fervença, couto de Cadima, falecia Baptista Fernandes Escuro, com 117 (cento e dezassete) anos! Isto de acordo com o indicado pelo Reitor Doutor Padre Ivo de Almeyda no registo de óbito que lavrou (ver excerto a seguir).

Será muito raro, há quase 300 anos alguém conseguir chegar aos 117 anos, sabendo que mesmo hoje essa idade não é atingida por praticamente ninguém. A ser verdade, o velho Baptista entraria para a lista das 5 pessoas com maior longevidade do nosso planeta!
Ora, nós sabemos que naquela altura a matemática não seria o forte do padre, nem as pessoas sabiam contar, e portanto erravam muito frequentemente na sua idade e sobretudo nas contas.
Num próximo artigo escreverei o que descobri sobre Baptista Fernandes Escuro, e revelarei a sua verdadeira idade no dia da sua morte...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Boas Festas e Feliz 2012

Boas Festas e Feliz 2012 a todos os visitantes. Aqui vos deixo com fotos de um presépio Gandarês (da Gesteira, claro), um presépio de Pedra (de Cantanhede), e um presépio mais citadinho (de Coimbra).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Hoje e Amanhã: Ser um astronauta

Hoje, um post um pouco diferente. Quando era criança lembro-me de estar em cima de um tronco de pinheiro, fechar os olhos e imaginar que estava numa nave espacial voando à descoberta de novos mundos.
Hoje estive, aqui em Versailles, nos arredores de Paris, com um ex-astronauta, e foi-nos apresentado o seguinte vídeo, muito inspirador, quer pela música e pela sua mensagem, quer pelas imagens.

Apreciem:
http://www.youtube.com/watch?v=YYh6BD6-Hc8

Qual o mal em ser astronauta (na vida real ou em sonhos)?

sábado, 1 de outubro de 2011

Hoje e Amanhã: O menino que queria ser astronauta

No jornal "Boa Nova" de 29 de setembro de 2011, na seção "MOMENTOS, ESPAÇOS E PESSOAS" (última página) vem o resultado de uma entrevista que dei à jornalista Mirla Ferreira Rodrigues.

Aqui fica a imagem para quem está longe

domingo, 31 de julho de 2011

Hoje e Amanhã: Verão de Criminosos

O Verão chegou e os mesmos problemas de sempre também permanecem.

Ontem, junto à Sanguinheira de Baixo, no caminho que vai da Gesteira (Madalenas) para a Sanguinheira de Baixo, uma alma criminosa ateou 2 fogos. Já o primeiro (das imagens) lavrava num monte de lenha de um pinhal recém cortado e começava a atear-se ao pinhal vizinho, quando se avistou outra coluna de fuma a uns 300 metros dali. A alma criminosa não deveria estar muito longe, mas tanto quanto sei não foi vista, apesar de alguém ter logo corrido na direção do segundo foco de incêndio.
Felizmente, a pronta atuação da população que por ali passava e a chamada dos bombeiros evitou logo males maiores.
Ainda apanhei um escaldão ao tentar evitar que o fogo se espalhasse para o pinhal vizinho, com ramos de acácia e atirando areia para cima da frente de fogo.

Quem comete estes atos criminosos deveria ser privado dos seus direitos de liberdade por largos anos!

sábado, 16 de julho de 2011

Cultura: Bruxas e Lobisomens

Antes dos anos 50 (chegada da electricidade pública à Gesteira), tempo muito diferente do nosso pois vivia-se muito "na escuridão", as distâncias eram bem maiores, a solidão tinha outro significado, passava-se mais tempo à lareira, não havia televisão, havia apenas 2 ou 3 aparelhos de rádio na freguesia de Cadima, e telefones, internet, telemóveis, ou não se sabia bem o que era, ou nem se imaginava o que poderiam vir a ser!

Mas havia histórias deliciosas que passavam de pais para filhos, verdadeiras ou não, simples crenças ou factos? Não me cabe a mim fazer esse julgamento, mas todos nós temos um pouco dessas histórias "românticas" na nossa infância, na nossa cultura, nas nossas crenças, nos nossos receios.

Lembro-me ainda de ruas pouco iluminadas, em noites muito escuras, em que sair á noite era um martírio, sobretudo se a lua estivesse escondida algures por ter medo de alguma coisa que eu não sabia e que eu temia. Era nessas noites que eu recordava as histórias de bruxas, lobisomens e almas penadas. Qualquer ruído, qualquer calafrio trazia logo à imaginação a possibilidade de me cruzar com um lobisomen, ou de ser raptado por alguma bruxa voando na sua vassoura e com poderes para passar pelo buraco da fechadura.


Em plena década de cinquenta e, na aldeia, sem a luz eléctrica, as noites de lua cheia, deveriam ser as "melhores" alturas para alimentar estes personagens. Deveria ser arrepiante para as almas mais fracas e mais sensíveis.

As pessoas tinham medo do escuro, do envolvimento dos pinheiros, da suas própria sombra que por vezes pareceria estar viva e deslocar-se. Quantas vezes terão corrido no escuro a fugir da sua sombra... Que se transformava em monstros que pediam emprestada a sua voz aos pássaros nocturnos e aos ruídos que vinham das moitas e dos pinhais, tornando-os (aos monstros) muito mais reais.


Ora as bruxas que tinham pactos com o Diabo (vá de retro Satanás), que sacrificavam animais, que domavam os lobos, que voavam sentadas no cabo das vasssouras de giesta, que perseguiam as crianças, que entravam pelo buraco da fechadura para fazer maldades ou levar as crianças -supostamente para as iniciar, junto de um agrupamento no meio de um pinhal, à volta de uma fogueira-, podem apenas ter o objectivo de obrigar as crianças a não falar com estranhos, evitar sair da estrada a caminho de casa, ou dormir bem aconchegados para não apanharem frio, e obrigar a outros comportamentos. Mas já dizem os nossos vizinhos espanhóis: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!"

Essa era outra altura ideal para se falar de bruxas (salvo seja...), daquelas que se deslocavam montadas no cabo de uma vassoura mágica, faziam poções maléficas, envenenavam as pessoas ou as transformavam em sapos. A Benfeita era fértil em sapos gordos, enormes, nojentos... "almas penadas" que quase nos perseguiam, aos saltos, quando à noite fugíamos para o areal.

Por outro lado, os lobisomens eram pessoas normais durante o dia, nossos vizinhos, amigos, familiares até, mas que tinham um feitiço, sendo condenados a percorrer sete vilas encasteladas em noite de lua cheia entre a meia-noite e o amanhecer, sendo meio-homens, meio-lobo ou meio-cavalo ou meio-outro animal qualquer, no qual se transformavam à meia-noite. Ora, na nossa Gândara os lobisomens não teriam muito sucesso, porque percorrer sete vilas encasteladas, estando o único castelo da Gândara em Montemor-o-Velho, teriam de percorrer quase todo o distrito de Coimbra...

Outra história curiosa da qual me recordo é da "mulher do mel". Até há algumas décadas atrás a nossa região sofria de uma extrema pobreza, o que levou à saída de muitas pessoas para o estrangeiro. Os que por cá ficaram continuavam o seu árduo trabalho para ganhar o pão de cada dia, nem sempre muito, nem sempre abundante. Quando as mães levavam as crianças para a lavoura, levavam geralmente um pouco de pão ou broa, e algumas vezes uma peça de fruta. Quando a fome apertava, davam o pão ou a broa às crianças e diziam-lhe que a mulher do mel estaria para passar por lá, trazendo mel para colocar no pão. As crianças ficavam esperando, com a esperança da passagem da mulher do mel, e como o tempo passava, e a mulher do mel nunca chegava, acabariam por comer o pão ou a broa e assim "matar a fome".



Hoje, as bruxas e os lobisomens têm outros nomes, são outras coisas, aparecem noutras situações, são os sinais dos tempos.

Crenças, Rezas e Benzeduras

Até há bem pouco tempo as pessoas acreditavam que as rezas e as orações as podiam proteger dos mais diversos males. Algumas dessas crenças que nos moldaram:

  • bruxas, geralmente pessoas solitárias e antipáticas, que só querem o mal dos outros, voavam no cabo de vassouras e queriam levar os meninos;
  • lobisomens, que era o nome dado a uma criatura que em noites de lua cheia se transformava em lobo ou outro animal e vagueava à procura de alguém que pudesse atacar, tendo de visitar sete vilas encasteladas entre a meia-noite e o amanhecer. Por essa razão se dizia que não era aconselhável sair nessas noites;
  • passar debaixo de uma escada, traz má sorte, passar de novo, elimina a maldição;
  • gatos pretos;
  • quebrar um espelho, dava sete anos de azar;
  • olhar-se ao espelho à meia-noite em ponto, poderia ver-se o diabo (e nós eramos uns diabinhos);
  • trabalhar aos Domingos, para além de ser pecado, está gravado na lua, o homem que trabalhou ao Domingo ainda por lá anda e se consegue ver a partir da terra nas noites de lua cheia;
  • se tiverem mais histórias/crenças envim-me que as publicarei aqui.

As orações, rezas ou benzeduras, eram as soluções o tratamento de muitos problemas que afectavam os nossos antepassados.

Actualmente, ainda há quem acredite na força das benzeduras e orações, defumadouros e outros tratamentos para resolverem os seus problemas. O mais comum na nossa aldeia era sem dúvida o mau olhado. Havia a crença de que a maioria das pessoas colocavam o maiu olhado sem o querer, simplesmente tinham um olhar muito forte, outros era por inveja ou por maldade mesmo.


Mau Olhado


O mau olhado (quebranto) podia ser lançado sobre um pessoa apenas com um olhar algumas vezes de forma inconsciente, mas quase sempre por inveja ou por maldade. Este causava cansaço, sono, e sobretudo dores de cabeça. O efeito só desapareceria depois de muito descanso ou de rezas.

Oração (para tirar o quebranto)

Usar um prato com água onde se coloca uma pinga de azeite após cada reza (feita sempre em número ímpar). Se esta não se espalhar na água é porque a pessoa mencionada não tem quebranto, se se espalhar é necessário fazer (em número ímpar) a reza até sete vezes para controlar a dispersão do azeite até desaparecer (se possível) ou passarem as dores da pessoa.

A reza tem muitas variações, mas a da nossa região é mais ou menos assim:
(Benzendo-se) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

[Nome da pessoa] tu tens quebranto, dois te puseram, três te hão-de tirar. De onde este mal veio para lá torne a voltar em nome das três pessoas da Santíssima Trindade que é (benzendo-se) o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ámen.