Encontrei num livro bastante interessante, "Glossario de Vocabulos Portuguezes, Derivados das Linguas Orientaes e Africanas, Excepto a Arabe", por D. Francisco de S. Luiz, Bispo reservatario de Coimbra, livro de 1837.
Este livro apresenta mais de uma centena de páginas com uma descrição da origem de bastantes palavras portuguesas, de origens Gregas, Persas, Hebraicas, Africanas, e outras, demonstrando mais um vez a riqueza do Português.
Como a Gesteira é uma aldeia, apresento aqui a origem do vocábulo "aldeia":
Sem surpresa, a palavra "aldeia", passou da "terra dos pêssegos" (Pérsia) para o Árabe, e daí para o Português.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Baú da Gesteira: Barracos de madeira
Num dos livros que estou a ler neste momento vem um pouco da descrição da "nossa" região.
Na página 46 do livro "História de Portugal", Vol. 1: Antes de Portugal, coordenado pelo Dr. José Mattoso, Editora Estampa, vem o seguinte texto:
"Entre os povoamentos mais recentes deve destacar-se o das areias do Oeste, entre Aveiro e a Figueira da Foz, que, de início, era formado por povoações temporárias, de «barracos» de madeira, construídas e ocupadas por gentes do interior e que aí se instalavam temporariamente para a pesca de Verão; pouco a pouco foram permanecendo ao longo do ano, acabando por constituir povoações fixas, dependentes da pesca e de alguma agrícultura de sobrevivência, possibilitada pela «colonização» das areias pelos sargaços - uso tão importante e antigo que já aparece regulamentado em foros da Idade Média. A partir da década de 60, com o surto do turismo, foram transformadas em estâncias de veraneio, já sem qualquer pitoresco e pejadas de gente. De todas estas povoações, a mais importante, tanto quanto era um singular aglomerado de casas de madeira, com dois e três andares, construídos sobre estacas, como actualmente, em que delas já nada resta, é, sem dúvida, Palheiros de Mira, hoje Praia de Mira, pelo desenvolvimento que atingiu e pelo movimento que regista no Verão. No conjunto, o litoral oeste, que representa cerca de dois terços da extensão total da costa, é rectilíneo e exposto quase todo o ano aos ventos dominantes de oeste."
Na página 46 do livro "História de Portugal", Vol. 1: Antes de Portugal, coordenado pelo Dr. José Mattoso, Editora Estampa, vem o seguinte texto:
"Entre os povoamentos mais recentes deve destacar-se o das areias do Oeste, entre Aveiro e a Figueira da Foz, que, de início, era formado por povoações temporárias, de «barracos» de madeira, construídas e ocupadas por gentes do interior e que aí se instalavam temporariamente para a pesca de Verão; pouco a pouco foram permanecendo ao longo do ano, acabando por constituir povoações fixas, dependentes da pesca e de alguma agrícultura de sobrevivência, possibilitada pela «colonização» das areias pelos sargaços - uso tão importante e antigo que já aparece regulamentado em foros da Idade Média. A partir da década de 60, com o surto do turismo, foram transformadas em estâncias de veraneio, já sem qualquer pitoresco e pejadas de gente. De todas estas povoações, a mais importante, tanto quanto era um singular aglomerado de casas de madeira, com dois e três andares, construídos sobre estacas, como actualmente, em que delas já nada resta, é, sem dúvida, Palheiros de Mira, hoje Praia de Mira, pelo desenvolvimento que atingiu e pelo movimento que regista no Verão. No conjunto, o litoral oeste, que representa cerca de dois terços da extensão total da costa, é rectilíneo e exposto quase todo o ano aos ventos dominantes de oeste."
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domingo, 6 de fevereiro de 2011
1º Aniversário do Blog da Gesteira
Foi a 6 de Fevereiro de 2010 que lancei o primeiro grão de areia na engrenagem da internet.
O objectivo era de dar a conhecer melhor a nossa terra, mas sobretudo de juntar as nossas gentes e de não deixar cair no esquecimento aquilo que nos fez, e aqueles por estas areias passaram, que nelas nasceram, viveram, morreram, que nelas foram felizes e que nelas sofreram.
Com quase 3400 visitas em 1 ano, e com vários contactos que tive, dos mais diversos cantos do mundo, penso que o meu objectivo está a ser cumprido.
Agradeço a todos os que me enviaram e-mails, a todos os que foram comentando os artigos, e espero que o continuem a fazer durante o próximo ano. A minha promessa é continuar a aprender (sobretudo convosco) e partilhar aquilo que vou descobrindo.
Mais uma vez relembro que quem quiser contrbuir com informações, fotos, ou outros assuntos de interesse da nossa região, que me contactem.
Parabéns ao nosso blog! E obrigado!
O objectivo era de dar a conhecer melhor a nossa terra, mas sobretudo de juntar as nossas gentes e de não deixar cair no esquecimento aquilo que nos fez, e aqueles por estas areias passaram, que nelas nasceram, viveram, morreram, que nelas foram felizes e que nelas sofreram.
Com quase 3400 visitas em 1 ano, e com vários contactos que tive, dos mais diversos cantos do mundo, penso que o meu objectivo está a ser cumprido.
Agradeço a todos os que me enviaram e-mails, a todos os que foram comentando os artigos, e espero que o continuem a fazer durante o próximo ano. A minha promessa é continuar a aprender (sobretudo convosco) e partilhar aquilo que vou descobrindo.
Mais uma vez relembro que quem quiser contrbuir com informações, fotos, ou outros assuntos de interesse da nossa região, que me contactem.
Parabéns ao nosso blog! E obrigado!
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Hoje e amanhã: Carlitos
Saíram destas terras Gandaresas muitas personagens, umas com mais impacto no Universo que outras. Hoje venho apresentar uma personagem actual, o Carlitos, jogador de futebol da Naval 1º de Maio (SuperLiga Portuguesa).
Carlos Pereira Rodrigues nasceu a 5 de Dezembro de 1981, é "natural" da Gesteira, e antes de rumar à Naval jogou na União Desportiva da Tocha.
O número 7 da Naval está no clube desde a época 2001/2002, é Defesa Direito e joga na SuperLiga Portuguesa desde que a Naval subiu à 1ª (2004/2005).
Carlitos faz parte da "espinha dorsal" da Naval, sendo títular na equipa.
A ficha do Carlitos no site da Naval pode ser vista AQUI.
O valor do Carlitos no site Transfermarkt por ser conferido AQUI.
Parabéns a este Gesteirense pela sua carreira!
Carlos Pereira Rodrigues nasceu a 5 de Dezembro de 1981, é "natural" da Gesteira, e antes de rumar à Naval jogou na União Desportiva da Tocha.
O número 7 da Naval está no clube desde a época 2001/2002, é Defesa Direito e joga na SuperLiga Portuguesa desde que a Naval subiu à 1ª (2004/2005).
Carlitos faz parte da "espinha dorsal" da Naval, sendo títular na equipa.
A ficha do Carlitos no site da Naval pode ser vista AQUI.
O valor do Carlitos no site Transfermarkt por ser conferido AQUI.
Parabéns a este Gesteirense pela sua carreira!
domingo, 9 de janeiro de 2011
Cultura: Lenda de Cadima
Conforme relatam velhos pergaminhos, há muitos e muitos anos, não muito longe da cidade de Coimbra, existia um terreno arenoso coberto de pinheiros que, pouco a pouco, foi povoado por um grupo de homens trabalhadores. Entre esses homens distinguia-se André, um rapaz alto, forte, de belas feições e de franco sorriso. Amava a sua terra, a sua mãe e o seu trabalho. Por esse motivo ele era respeitado pelos demais companheiros. Mas, um dia, algo veio alterar essa paz de espírito. Àquela terra acabava de chegar, vindo não se sabe de onde, outro grupo de homens e mulheres, entre os quais um velho e uma rapariga. E tudo mudou. Até André já não parecia o mesmo. Entrava em casa silencioso. Comia em silêncio e deitava-se sem quase dar uma palavra àquela que lhe dera o ser e com quem tagarelava, outrora, tanto!
Não podendo conter-se, certa tarde, a mãe de André quis meter o rapaz a confesso. Com cuidado e carinho ela indagou:
— Meu filho! Que estás vendo dentro da tigela do caldo? Olha que o deixas esfriar!
Ele acusou o toque. Mostrou-se embaraçado, tentou reagir, mas em vão. E confessou:
— Ando preocupado, mãe!
Ela sorriu-lhe docemente.
— Eu sei, André! As mães sabem sempre tudo, mesmo quando os filhos têm segredos para elas...
O rapaz abanou a cabeça.
— Não tenho segredos para si, mãe! Desde que o pai morreu, a mãe é toda a minha razão de trabalhar!
Maliciosamente, ela retorquiu:
— ... Mas já não sou todo o teu pensamento!
André olhou-a, apreensivo.
— Mãe! Não pense que...
— Eu sei, meu filho. Não és só tu que vives a pensar nessa mulher. Eu bem oiço os outros! E bem oiço, também, como as outras mulheres a temem.
O rapaz olhou a mãe de frente, pela primeira vez desde que a conversa começara.
— Temem-na... porquê?
— Até eu a receio, André! Quem é ela? Donde veio? Que faz aqui, neste nosso cantinho, quando a terra é tão grande?
As sobrancelhas de André franziram-se, num sinal de arrelia ou desgosto.
— Ela não faz mal a ninguém! Poucos são capazes de a ver e nenhum ainda lhe chegou à fala!
— Precisamente por isso. É estranha, essa mulher. Acredita, filho! O meu coração anda muito pequenino, muito medroso dentro do meu peito!
De novo o ar de interrogação magoada.
— Medroso? Mas porquê?... É certo que também a acho estranha...
Era arrastada, agora, a sua voz. O olhar perdia-se sobre a mesa. A mãe fitava-o, inquieta. E ele continuava, numa divagação:
— Estranha e linda!... Miraculosamente linda!
Foi a vez da mãe de André o interromper:
— Linda? Nem por isso, meu filho. Apenas tem nos olhos qualquer coisa que me aflige…
André olhou a mãe com entusiasmo.
— Já reparou nos olhos dela?... Parece que chamam por nós! E não sabemos resistir a esse chamamento!
Soturnamente, a mãe de André comentou:
— Até parece obra do Demónio!
Ele afligiu-se.
— Por Deus, mãe, não diga isso! Não calcula o mal que essas palavras podem causar-me. Ando quase louco. Quase louco!...
— Filho, meu filho, toma cuidado!... É a tua mãe que te pede!
Ele abanou a cabeça e, com um gesto brusco, pôs o caldo de lado, enquanto dizia:
— Tenho de falar com ela! Tenho de saber quem é! E já! Já!
Levantou-se e saiu apressado, quase correndo, a caminho do local onde aquela estranha gente levantara a sua tenda. À medida que se ia encontrando com os outros habitantes do lugar, estes, que o consideravam como um chefe, olhavam-no boquiabertos, ou persignavam-se, tal o desatino em que ele corria agora para se encontrar com a bela desconhecida.
Chegou breve ao seu destino. Estacou. E o seu olhar traduziu o enleio do seu coração.
De pé, encostada a um pinheiro, olhos perdidos no horizonte, corpo esbelto coberto por uma túnica, cabelos soltos ao vento, ela ali estava, como se o esperasse já!
André resolveu aproximar-se. Devagar. O coração batia-lhe violentamente no peito. O olhar da jovem desconhecida pousou sobre o seu rosto e ali ficou, fixo no olhar de André, até o ver bem junto dela.
Atarantado, ele formulou uma desculpa:
— Perdoa-me, se venho molestar-te!
Numa voz bonita e profunda, ela respondeu, com um leve sorriso:
— Há muito que te esperava. Porque resististe assim?
Ele olhou-a de novo, com excitação, antes de confessar:
— Tu amedrontas-me! Quem és? Donde vieste?
A voz da jovem adoçou-se mais.
— Sou Cadima e nem sei donde venho! Perdi minha mãe à nascença e ando a vaguear com meu pai e com os seus companheiros, de terra em terra. Para eles, não há distâncias, nem fronteiras. Parece que o mundo inteiro lhes pertence! E são felizes, à sua maneira. Eu não. Às vezes, sinto-me cansada!
O olhar e a voz de André brilharam de ansiedade.
— Queres dizer... que partirás daqui... qualquer dia?
— Eles assim o querem!
— E tu?
— Eu...
Ela hesitou. Olhou-o intencionalmente e decidiu-se a terminar o seu pensamento:
— Se tu quiseres... ficarei para sempre na terra onde habitares.
André sentiu-se reanimar. O entusiasmo deu-lhe novo brilho ao olhar e mais alento à voz.
— Cadima! A tua expressão parece-me sincera. Mas não tentes iludir-me! Tu já deves saber o que se passa: os homens amam-te tanto quanto as mulheres te odeiam!
Ela acenou ligeiramente com a cabeça, em sinal afirmativo. André continuou, agora com menos excitação:
— Por mim... deixei de ser o mesmo desde que desceste à nossa planície, outrora tão tranquila!
Cadima sorriu, enleada, olhando a paisagem que a rodeava.
— E quão belo é tudo isto! Aqui, tenho experimentado sensações diferentes. Sinto-me outra. Chego a ter medo de certas frases de meu pai e noto agora que um sentimento estranho me obriga a pensar constantemente em ti.
Houve um curtíssimo silêncio, que ela logo quebrou:
— Chamas-te André, não é verdade?
— Sim, chamo-me André. Já não tenho pai e sou o amparo da minha mãe. Não queiras, portanto, aniquilar a minha vida por um simples capricho. Seria capaz de matar-te, se tal fizesses!
Cadima sorriu. Um sorriso estranho, que quase a iluminava.
— Nada temas, André. Só te quero a ti. Só tu me agradaste. Diz uma palavra e ficarei contigo!
Ele olhou-a, perplexo.
— Uma palavra?... E que desejas que te diga?
— Que na verdade me amas. Por mim, e não pelo mistério que se estende à minha volta.
André vincou as unhas nas palmas das mãos, a refrear o impulso que o levaria a encher de beijos as mãos brancas de Cadima. A sua respiração fazia-se alta. Houve um momento sem palavras e, por fim, André perguntou ansiosamente à jovem desconhecida:
— Serás capaz de respeitar e amar a minha mãe?
Ela olhou-o com ternura. Uma ternura imensa no seu olhar de fogo.
— André! Eu nunca soube o que era ter mãe. Até essa felicidade tu me darias!
A alegria de André subiu ao auge.
— Minha doce Cadima! Eu julgo-me no Céu! Vem comigo. Quero apresentar-te àquela que me deu o ser e tanto trabalhou para que eu me fizesse um homem, minha Cadima!
A jovem estremeceu. André pegara-lhe num dos braços. Ela libertou-se suavemente do jugo dos dedos de André. Na sua voz surgiu algo de pesado e triste:
— Agora, não. Meu pai está a chegar. Pressinto no meu peito que algo de grave ou grandioso irá acontecer. E é preciso que tu não estejas presente!
André mostrou-se contrariado.
— Continuas misteriosa! Porque não te abres comigo, se é certo que já me pertences pelo coração?
Ela soltou um fundo suspiro. Antes de responder olhou a terra amarelada, os pinheiros de agulhas verdes, com que brincava o vento. Escutou o seu murmurar, como ondulação de oceano. E só depois se decidiu a falar.
— André! Ouve isto que é necessário que saibas: para poder pertencer-te... terei de desligar-me completamente de meu pai.
Ele surpreendeu-se:
— Desligar?
— Sim. Não me perguntes mais nada!
— E... serás capaz disso?
Cadima olhou-o novamente nos olhos. Ele viu lágrimas a tentarem invadir o rosto bonito da jovem e sentiu-se enternecer. Mas já ela lhe falava, numa voz cheia de suavidade e tristeza:
— André! Tenho visto várias vezes tua mãe entrar na capelinha e rezar. Pois vai depressa e pede-lhe que reze também por mim!
As últimas palavras já foram ditas com a invasão das lágrimas. Cadima chorava. Chorava silenciosamente e ele sentiu-se enlouquecer.
— Não! Não quero ver-te chorar! Se soubesses como me doem as tuas lágrimas! Que te aflige? Conta-me tudo!
Ela abanou a cabeça negativamente e disse, num murmúrio:
— Vai. Vai depressa, André. Vai ter com a tua mãe e que ela não se esqueça de orar por mim!
E como o rapaz ficasse imóvel a olhá-la, ela tornou, agora com firmeza:
— Vai depressa, se queres salvar-me!
André não quis ouvir mais. Voltou para a povoação, com o peito opresso por um estranho, trágico pressentimento. Correu, tal como correra para ir ao encontro de Cadima. Quando a mãe o viu de volta, foi ao seu encontro. E os dois, sozinhos, ficaram falando dessa estranha visita de André à tenda da bela desconhecida...
Entretanto, na planície arenosa, o pai de Cadima aparecia. Vinha apressado e mal viu a filha ordenou, de modo imperioso:
— Cadima! Vamos partir imediatamente!
Ela sobressaltou-se.
— Para onde, meu pai?
— Para onde deseja aquele que me governa!
Pela primeira vez ela sentiu forças para perguntar.
— E quem é esse que o governa?
O pai olhou-a de frente, num sorriso mau.
— Ainda não compreendeste? Contra ele nada poderás! Ele ouviu a tua conversa de há pouco. Foi ele que me mandou aqui. Apressa-te, pois! Vamos trabalhar para outra terra.
Muito pálida, Cadima tentou mostrar-se enérgica.
— Trabalhar? Chama a isto trabalhar? Pois saiba que estou farta de causar desordens, assassínios e suicídios! Os meus olhos espalham a morte e a desolação! Para que se servem de mim? Eu não quero, ouviu bem? Não quero!
O velho gritou:
— És minha filha! Pertences-me!
— Pois deixarei de pertencer-lhe!
O homem rangeu os dentes.
— Que estás dizendo? Neste momento também ele te ouve e não consentirá que nos deixes!
Cada vez mais trémula mas tentando reagir, Cadima exclamou:
— Ele nada pode contra a Cruz!
O velho horrorizou-se.
— Cala-te! Não pronuncies essa palavra!
— É a única que me poderá trazer a salvação!
A raiva do velho continuava em crescendo:
— Matar-te-ei, se pensares ficar aqui!
Cadima olhou em volta com ternura e os seus olhos beijaram em pensamento a bela paisagem. Depois respondeu, serena:
— Prefiro a morte a ser escrava do seu senhor! Neste momento, alguém pede por mim. Sinto novas forças a alentar a minha alma. Parta, parta sozinho, se quiser continuar ao serviço do mal! Eu conheci o amor... e por ele me quero salvar!
O homem fitava-a agora com estranheza.
— Reconsidera, Cadima! Vais perder-te!
— Não se perde quem ama!
Mais sereno, o pai tornou:
— Também eu conheci um dia o amor! Foi desse amor que tu nasceste. Mas ela... foi morta por ele... e eu continuei pelo mundo fora. Já não tenho salvação e não ouso ficar sozinho!
Animosa, Cadima tentou ajudá-lo.
— Encha-se de coragem, meu pai, e renegue-o também!
Os olhos do homem faiscaram e a sua voz voltou a ficar rouca de furor.
— Cala-te, filha ingrata! Tens de partir comigo!
Cadima assustou-se. E gritou também:
— Não quero! Não quero partir! Ficarei aqui nesta terra abençoada!
Ele troçou no meio da cólera.
— Abençoada? Esta é terra onde impera a areia e falta a água para dessedentar os homens!
Cadima não se deixou vencer. Retorquiu:
— Esta terra será fértil e dará de beber aos que tiverem sede!
Nesse momento, um enorme trovão se ouviu e a terra tremeu assustadoramente. Cadima fez-se pálida. Então, o pai da jovem desconhecida apontou na sua frente.
— Olha, Cadima. O meu senhor está ali! Vem ao teu encontro. Não queiras perder-te, nem perder o único homem que dizes ter amado!
Sentindo uma força interior, Cadima exclamou, enérgica:
— Afasta-te, poder do mal! Eu te renego!
O velho enfureceu-se.
— Louca! Ainda conseguirás desgraçar-me! Se lhe fugires, levarás a desgraça contigo e ela alastrar-se-á àqueles para quem, neste momento, vai o teu coração!
As lágrimas voltaram a aflorar aos olhos da rapariga. Havia uma enorme tristeza estampada no seu rosto. O velho sorriu, julgando ter vencido. A poucos passos, um homem de olhar estranho fitava-a, tentando subjugá-la. Mas Cadima, elevando os olhos ao céu, deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto, e sem medo proferiu este estranho pedido:
— Se o mal que eu causei aos outros, se os crimes que fui obrigada a cometer puderem ser redimidos pela renúncia à minha felicidade na terra, que eu nunca mais veja André! Que ele se transforme num homem poderoso e feliz e que eu — livre finalmente das trevas — possa ver a Deus no Céu!
Nesse mesmo momento, o Demónio correu para ela para a agarrar.
Mas, antes que pudesse alcançá-la, a terra abriu-se como por encanto e Cadima desapareceu. E no lugar onde ela estivera, duas fontes brotaram da terra, jorrando água de um metro de altura.
Numa praga, o Demónio desapareceu também, levando consigo o velho.
O cantar da água fez-se ouvir em breve, deixando as gentes estupefactas.
Acorreu toda a povoação para observar tão estranho fenómeno. André e a mãe também vieram. Com grande espanto do rapaz, Cadima e a sua tenda tinham desaparecido!
Alucinado, André começou a chamar:
— Cadima! Cadima, onde estás? Para onde te levaram?
Então o barulho da água acalmou e ouviu-se um sussurro:
— Estou aqui... na água que brota da terra!
André olhou a mãe. Parecia louco. Os olhos arrasaram-se de lágrimas.
— Cadima! Porque me fugiste?
O sussurro voltou a escutar-se:
— Fugi-te para bem da minha alma e teu proveito, já que foste o meu grande amor!
André caiu de joelhos sobre a terra, chorando e dizendo:
— Nunca mais verei os teus olhos?
Ouviu-se de novo a voz de Cadima:
— Os meus olhos estarão sempre presentes nesta terra onde tu habitas. Eu to prometi! Ficarei aqui contigo. E os meus olhos aí estão transformados nessas fontes que darão de beber aos que tiverem sede!
André voltou a dizer alto, no meio da sua dor:
— Mas como poderei viver sem ti?
Na voz da água cantante, Cadima fez-se ouvir pela última vez:
— Viverás sem mim enquanto Deus quiser! Depois, virás ter comigo, e na nossa frente, então, ficará uma vida eterna!
André beijou a terra que a água cobria. E prometeu:
— Cadima! A esta terra que eu vim habitar e que tu, com os teus olhos, tornarás fértil, daremos o teu nome — Cadima — em recordação da tua passagem por aqui! E até que Deus queira, aqui virei todos os dias para te ouvir, já que não te poderei ver!
E a água, deslizando na terra, veio acariciar-lhe os olhos, os lábios, as mãos!...
Os tempos passaram. Séculos e séculos em procissão. Pois ainda nos nossos dias, nos campos que hoje pertencem ao lugar de Fervença, na freguesia de Cadima, lá está uma das fontes a que chamam «os olhos de Fervença» e que outrora eram chamados «os olhos de Cadima».
Não podendo conter-se, certa tarde, a mãe de André quis meter o rapaz a confesso. Com cuidado e carinho ela indagou:
— Meu filho! Que estás vendo dentro da tigela do caldo? Olha que o deixas esfriar!
Ele acusou o toque. Mostrou-se embaraçado, tentou reagir, mas em vão. E confessou:
— Ando preocupado, mãe!
Ela sorriu-lhe docemente.
— Eu sei, André! As mães sabem sempre tudo, mesmo quando os filhos têm segredos para elas...
O rapaz abanou a cabeça.
— Não tenho segredos para si, mãe! Desde que o pai morreu, a mãe é toda a minha razão de trabalhar!
Maliciosamente, ela retorquiu:
— ... Mas já não sou todo o teu pensamento!
André olhou-a, apreensivo.
— Mãe! Não pense que...
— Eu sei, meu filho. Não és só tu que vives a pensar nessa mulher. Eu bem oiço os outros! E bem oiço, também, como as outras mulheres a temem.
O rapaz olhou a mãe de frente, pela primeira vez desde que a conversa começara.
— Temem-na... porquê?
— Até eu a receio, André! Quem é ela? Donde veio? Que faz aqui, neste nosso cantinho, quando a terra é tão grande?
As sobrancelhas de André franziram-se, num sinal de arrelia ou desgosto.
— Ela não faz mal a ninguém! Poucos são capazes de a ver e nenhum ainda lhe chegou à fala!
— Precisamente por isso. É estranha, essa mulher. Acredita, filho! O meu coração anda muito pequenino, muito medroso dentro do meu peito!
De novo o ar de interrogação magoada.
— Medroso? Mas porquê?... É certo que também a acho estranha...
Era arrastada, agora, a sua voz. O olhar perdia-se sobre a mesa. A mãe fitava-o, inquieta. E ele continuava, numa divagação:
— Estranha e linda!... Miraculosamente linda!
Foi a vez da mãe de André o interromper:
— Linda? Nem por isso, meu filho. Apenas tem nos olhos qualquer coisa que me aflige…
André olhou a mãe com entusiasmo.
— Já reparou nos olhos dela?... Parece que chamam por nós! E não sabemos resistir a esse chamamento!
Soturnamente, a mãe de André comentou:
— Até parece obra do Demónio!
Ele afligiu-se.
— Por Deus, mãe, não diga isso! Não calcula o mal que essas palavras podem causar-me. Ando quase louco. Quase louco!...
— Filho, meu filho, toma cuidado!... É a tua mãe que te pede!
Ele abanou a cabeça e, com um gesto brusco, pôs o caldo de lado, enquanto dizia:
— Tenho de falar com ela! Tenho de saber quem é! E já! Já!
Levantou-se e saiu apressado, quase correndo, a caminho do local onde aquela estranha gente levantara a sua tenda. À medida que se ia encontrando com os outros habitantes do lugar, estes, que o consideravam como um chefe, olhavam-no boquiabertos, ou persignavam-se, tal o desatino em que ele corria agora para se encontrar com a bela desconhecida.
Chegou breve ao seu destino. Estacou. E o seu olhar traduziu o enleio do seu coração.
De pé, encostada a um pinheiro, olhos perdidos no horizonte, corpo esbelto coberto por uma túnica, cabelos soltos ao vento, ela ali estava, como se o esperasse já!
André resolveu aproximar-se. Devagar. O coração batia-lhe violentamente no peito. O olhar da jovem desconhecida pousou sobre o seu rosto e ali ficou, fixo no olhar de André, até o ver bem junto dela.
Atarantado, ele formulou uma desculpa:
— Perdoa-me, se venho molestar-te!
Numa voz bonita e profunda, ela respondeu, com um leve sorriso:
— Há muito que te esperava. Porque resististe assim?
Ele olhou-a de novo, com excitação, antes de confessar:
— Tu amedrontas-me! Quem és? Donde vieste?
A voz da jovem adoçou-se mais.
— Sou Cadima e nem sei donde venho! Perdi minha mãe à nascença e ando a vaguear com meu pai e com os seus companheiros, de terra em terra. Para eles, não há distâncias, nem fronteiras. Parece que o mundo inteiro lhes pertence! E são felizes, à sua maneira. Eu não. Às vezes, sinto-me cansada!
O olhar e a voz de André brilharam de ansiedade.
— Queres dizer... que partirás daqui... qualquer dia?
— Eles assim o querem!
— E tu?
— Eu...
Ela hesitou. Olhou-o intencionalmente e decidiu-se a terminar o seu pensamento:
— Se tu quiseres... ficarei para sempre na terra onde habitares.
André sentiu-se reanimar. O entusiasmo deu-lhe novo brilho ao olhar e mais alento à voz.
— Cadima! A tua expressão parece-me sincera. Mas não tentes iludir-me! Tu já deves saber o que se passa: os homens amam-te tanto quanto as mulheres te odeiam!
Ela acenou ligeiramente com a cabeça, em sinal afirmativo. André continuou, agora com menos excitação:
— Por mim... deixei de ser o mesmo desde que desceste à nossa planície, outrora tão tranquila!
Cadima sorriu, enleada, olhando a paisagem que a rodeava.
— E quão belo é tudo isto! Aqui, tenho experimentado sensações diferentes. Sinto-me outra. Chego a ter medo de certas frases de meu pai e noto agora que um sentimento estranho me obriga a pensar constantemente em ti.
Houve um curtíssimo silêncio, que ela logo quebrou:
— Chamas-te André, não é verdade?
— Sim, chamo-me André. Já não tenho pai e sou o amparo da minha mãe. Não queiras, portanto, aniquilar a minha vida por um simples capricho. Seria capaz de matar-te, se tal fizesses!
Cadima sorriu. Um sorriso estranho, que quase a iluminava.
— Nada temas, André. Só te quero a ti. Só tu me agradaste. Diz uma palavra e ficarei contigo!
Ele olhou-a, perplexo.
— Uma palavra?... E que desejas que te diga?
— Que na verdade me amas. Por mim, e não pelo mistério que se estende à minha volta.
André vincou as unhas nas palmas das mãos, a refrear o impulso que o levaria a encher de beijos as mãos brancas de Cadima. A sua respiração fazia-se alta. Houve um momento sem palavras e, por fim, André perguntou ansiosamente à jovem desconhecida:
— Serás capaz de respeitar e amar a minha mãe?
Ela olhou-o com ternura. Uma ternura imensa no seu olhar de fogo.
— André! Eu nunca soube o que era ter mãe. Até essa felicidade tu me darias!
A alegria de André subiu ao auge.
— Minha doce Cadima! Eu julgo-me no Céu! Vem comigo. Quero apresentar-te àquela que me deu o ser e tanto trabalhou para que eu me fizesse um homem, minha Cadima!
A jovem estremeceu. André pegara-lhe num dos braços. Ela libertou-se suavemente do jugo dos dedos de André. Na sua voz surgiu algo de pesado e triste:
— Agora, não. Meu pai está a chegar. Pressinto no meu peito que algo de grave ou grandioso irá acontecer. E é preciso que tu não estejas presente!
André mostrou-se contrariado.
— Continuas misteriosa! Porque não te abres comigo, se é certo que já me pertences pelo coração?
Ela soltou um fundo suspiro. Antes de responder olhou a terra amarelada, os pinheiros de agulhas verdes, com que brincava o vento. Escutou o seu murmurar, como ondulação de oceano. E só depois se decidiu a falar.
— André! Ouve isto que é necessário que saibas: para poder pertencer-te... terei de desligar-me completamente de meu pai.
Ele surpreendeu-se:
— Desligar?
— Sim. Não me perguntes mais nada!
— E... serás capaz disso?
Cadima olhou-o novamente nos olhos. Ele viu lágrimas a tentarem invadir o rosto bonito da jovem e sentiu-se enternecer. Mas já ela lhe falava, numa voz cheia de suavidade e tristeza:
— André! Tenho visto várias vezes tua mãe entrar na capelinha e rezar. Pois vai depressa e pede-lhe que reze também por mim!
As últimas palavras já foram ditas com a invasão das lágrimas. Cadima chorava. Chorava silenciosamente e ele sentiu-se enlouquecer.
— Não! Não quero ver-te chorar! Se soubesses como me doem as tuas lágrimas! Que te aflige? Conta-me tudo!
Ela abanou a cabeça negativamente e disse, num murmúrio:
— Vai. Vai depressa, André. Vai ter com a tua mãe e que ela não se esqueça de orar por mim!
E como o rapaz ficasse imóvel a olhá-la, ela tornou, agora com firmeza:
— Vai depressa, se queres salvar-me!
André não quis ouvir mais. Voltou para a povoação, com o peito opresso por um estranho, trágico pressentimento. Correu, tal como correra para ir ao encontro de Cadima. Quando a mãe o viu de volta, foi ao seu encontro. E os dois, sozinhos, ficaram falando dessa estranha visita de André à tenda da bela desconhecida...
Entretanto, na planície arenosa, o pai de Cadima aparecia. Vinha apressado e mal viu a filha ordenou, de modo imperioso:
— Cadima! Vamos partir imediatamente!
Ela sobressaltou-se.
— Para onde, meu pai?
— Para onde deseja aquele que me governa!
Pela primeira vez ela sentiu forças para perguntar.
— E quem é esse que o governa?
O pai olhou-a de frente, num sorriso mau.
— Ainda não compreendeste? Contra ele nada poderás! Ele ouviu a tua conversa de há pouco. Foi ele que me mandou aqui. Apressa-te, pois! Vamos trabalhar para outra terra.
Muito pálida, Cadima tentou mostrar-se enérgica.
— Trabalhar? Chama a isto trabalhar? Pois saiba que estou farta de causar desordens, assassínios e suicídios! Os meus olhos espalham a morte e a desolação! Para que se servem de mim? Eu não quero, ouviu bem? Não quero!
O velho gritou:
— És minha filha! Pertences-me!
— Pois deixarei de pertencer-lhe!
O homem rangeu os dentes.
— Que estás dizendo? Neste momento também ele te ouve e não consentirá que nos deixes!
Cada vez mais trémula mas tentando reagir, Cadima exclamou:
— Ele nada pode contra a Cruz!
O velho horrorizou-se.
— Cala-te! Não pronuncies essa palavra!
— É a única que me poderá trazer a salvação!
A raiva do velho continuava em crescendo:
— Matar-te-ei, se pensares ficar aqui!
Cadima olhou em volta com ternura e os seus olhos beijaram em pensamento a bela paisagem. Depois respondeu, serena:
— Prefiro a morte a ser escrava do seu senhor! Neste momento, alguém pede por mim. Sinto novas forças a alentar a minha alma. Parta, parta sozinho, se quiser continuar ao serviço do mal! Eu conheci o amor... e por ele me quero salvar!
O homem fitava-a agora com estranheza.
— Reconsidera, Cadima! Vais perder-te!
— Não se perde quem ama!
Mais sereno, o pai tornou:
— Também eu conheci um dia o amor! Foi desse amor que tu nasceste. Mas ela... foi morta por ele... e eu continuei pelo mundo fora. Já não tenho salvação e não ouso ficar sozinho!
Animosa, Cadima tentou ajudá-lo.
— Encha-se de coragem, meu pai, e renegue-o também!
Os olhos do homem faiscaram e a sua voz voltou a ficar rouca de furor.
— Cala-te, filha ingrata! Tens de partir comigo!
Cadima assustou-se. E gritou também:
— Não quero! Não quero partir! Ficarei aqui nesta terra abençoada!
Ele troçou no meio da cólera.
— Abençoada? Esta é terra onde impera a areia e falta a água para dessedentar os homens!
Cadima não se deixou vencer. Retorquiu:
— Esta terra será fértil e dará de beber aos que tiverem sede!
Nesse momento, um enorme trovão se ouviu e a terra tremeu assustadoramente. Cadima fez-se pálida. Então, o pai da jovem desconhecida apontou na sua frente.
— Olha, Cadima. O meu senhor está ali! Vem ao teu encontro. Não queiras perder-te, nem perder o único homem que dizes ter amado!
Sentindo uma força interior, Cadima exclamou, enérgica:
— Afasta-te, poder do mal! Eu te renego!
O velho enfureceu-se.
— Louca! Ainda conseguirás desgraçar-me! Se lhe fugires, levarás a desgraça contigo e ela alastrar-se-á àqueles para quem, neste momento, vai o teu coração!
As lágrimas voltaram a aflorar aos olhos da rapariga. Havia uma enorme tristeza estampada no seu rosto. O velho sorriu, julgando ter vencido. A poucos passos, um homem de olhar estranho fitava-a, tentando subjugá-la. Mas Cadima, elevando os olhos ao céu, deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto, e sem medo proferiu este estranho pedido:
— Se o mal que eu causei aos outros, se os crimes que fui obrigada a cometer puderem ser redimidos pela renúncia à minha felicidade na terra, que eu nunca mais veja André! Que ele se transforme num homem poderoso e feliz e que eu — livre finalmente das trevas — possa ver a Deus no Céu!
Nesse mesmo momento, o Demónio correu para ela para a agarrar.
Mas, antes que pudesse alcançá-la, a terra abriu-se como por encanto e Cadima desapareceu. E no lugar onde ela estivera, duas fontes brotaram da terra, jorrando água de um metro de altura.
Numa praga, o Demónio desapareceu também, levando consigo o velho.
O cantar da água fez-se ouvir em breve, deixando as gentes estupefactas.
Acorreu toda a povoação para observar tão estranho fenómeno. André e a mãe também vieram. Com grande espanto do rapaz, Cadima e a sua tenda tinham desaparecido!
Alucinado, André começou a chamar:
— Cadima! Cadima, onde estás? Para onde te levaram?
Então o barulho da água acalmou e ouviu-se um sussurro:
— Estou aqui... na água que brota da terra!
André olhou a mãe. Parecia louco. Os olhos arrasaram-se de lágrimas.
— Cadima! Porque me fugiste?
O sussurro voltou a escutar-se:
— Fugi-te para bem da minha alma e teu proveito, já que foste o meu grande amor!
André caiu de joelhos sobre a terra, chorando e dizendo:
— Nunca mais verei os teus olhos?
Ouviu-se de novo a voz de Cadima:
— Os meus olhos estarão sempre presentes nesta terra onde tu habitas. Eu to prometi! Ficarei aqui contigo. E os meus olhos aí estão transformados nessas fontes que darão de beber aos que tiverem sede!
André voltou a dizer alto, no meio da sua dor:
— Mas como poderei viver sem ti?
Na voz da água cantante, Cadima fez-se ouvir pela última vez:
— Viverás sem mim enquanto Deus quiser! Depois, virás ter comigo, e na nossa frente, então, ficará uma vida eterna!
André beijou a terra que a água cobria. E prometeu:
— Cadima! A esta terra que eu vim habitar e que tu, com os teus olhos, tornarás fértil, daremos o teu nome — Cadima — em recordação da tua passagem por aqui! E até que Deus queira, aqui virei todos os dias para te ouvir, já que não te poderei ver!
E a água, deslizando na terra, veio acariciar-lhe os olhos, os lábios, as mãos!...
Os tempos passaram. Séculos e séculos em procissão. Pois ainda nos nossos dias, nos campos que hoje pertencem ao lugar de Fervença, na freguesia de Cadima, lá está uma das fontes a que chamam «os olhos de Fervença» e que outrora eram chamados «os olhos de Cadima».
Fonte: MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 301-308
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Feliz 2011
Votos sinceros de felicidade, sucesso, saúde, paz e que os sonhos deixem de ser sonhos e passem a ser realidade.
Ao fim de quase 11 meses de existência deste blog atingimos ontem as 3000 visitas. Espero que em 2011 continuem a visitar e comentar os artigos do blog.
Feliz 2011 para TODOS.
Ao fim de quase 11 meses de existência deste blog atingimos ontem as 3000 visitas. Espero que em 2011 continuem a visitar e comentar os artigos do blog.
Feliz 2011 para TODOS.
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Baú da Gesteira: Escola primária da Gesteira, ano lectivo de 1982/83 (parte 2)
Nos primeiros dias de Dezembro recebi de mais um Gesteirense uma valiosa contribuição para identificar os alunos da foto od Magusto de 1982. Os nomes estão na foto e também são apresentados de seguida.
De cócoras, da esquerda para a direita:
Fernando Santos, Henrique Vinagreiro, Nuno Silva, Paulo, Victor, Vitos, Bacia de Castanhas, Ulisses Teixeira, Rogério, Pedro
De pé, da esquerda para a direita:
André (filho da professora), Helena, Duarte Taboeira, Célia, Regina, Paula Navalhas, Gorete, Susana, Cristina, Dulce, Zé Manel Bento, Vitor, Hortência, ?, Clídia, ?, Graça, Graça, Professora, Fernando Bento, Rui, Elizabete, Maria do Céu
De cócoras, da esquerda para a direita:
Fernando Santos, Henrique Vinagreiro, Nuno Silva, Paulo, Victor, Vitos, Bacia de Castanhas, Ulisses Teixeira, Rogério, Pedro
De pé, da esquerda para a direita:
André (filho da professora), Helena, Duarte Taboeira, Célia, Regina, Paula Navalhas, Gorete, Susana, Cristina, Dulce, Zé Manel Bento, Vitor, Hortência, ?, Clídia, ?, Graça, Graça, Professora, Fernando Bento, Rui, Elizabete, Maria do Céu
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Baú da Gesteira: O mistério de Entre Águas
Feliz Natal e que 2011 seja um ano em cheio para TODOS.
Como tenho apresentado aqui algumas "imagens" do passado, surgiu uma discussão saudável sobre a localização da antiga aldeia de Entre Águas (ou Entre as Agoas, Entre Ambas as Águas, Moínho de Entre Águas, etc).
Inicialmente pensei que a localização fosse junto ao Escoural, mas o esclarecimento de um leitor do blog veio colocar mais luz na questão:
"... ESTE SITIO FICA JUNTO AO LUGAR CONHECIDO HOJE POR PORTO SOBREIRO. O SITIO ENTRE ÁGUAS É MAIS PRECISAMENTE ONDE HOJE SE ENCONTRAM AS INSTALAÇÕES DA JÁ FECHADA FÁBRICA DE REFRIGERANTES DUARTE GIL & IRMÃOS MAIS CONHECIDA POR FABRICA DE REFRIGERANTES PORTO SOBREIRO . SE TIVER OPORTUNIDADE AO PASSAR PELA ESTRADA QUE VAI DO PORTO SOBREIRO PARA A TABOEIRA ANTES DA PONTE AO OLHAR PARA O SEU LADO ESQUERDO VERIFICARÁ QUE EXISTEM DUAS VALAS REIAS , UMA QUE VEM DO LADO NASCENTE E A OUTRA QUE VEM DO LADO SUL ( AZENHA ) . VERIFICARÁ AINDA QUE EXISTE EMBORA EM RUÍNAS UMA CONSTRUÇÃO ONDE FUNCIONARAM EM TEMPOS ANTIGOS DOIS MOINHOS . ERAM CONHECIDOS PELOS MOINHOS DO "TI RITO". SE PERGUNTAR A ALGUMA PESSOA MAIS VELHA AQUI DA ZONA ONDE É QUE FICA A PONTE DAS ENTRE ÁGUAS VAI FICAR COMPLETAMENTE ESCLARECIDO DA ORIGEM DO NOME PARA ESTE SITIO .
AO QUE JULGO SABER A CM CANTANHEDE COMPROU ESTES TERRENOS ONDE SE ENCONTRAM OS MOINHOS ( RUINAS ) PARA AI CONSTRUIR UM PARQUE MULTIUSOS RECUPERANDO DESTA FORMA TAMBÉM OS MOINHOS."
Agradeço desde já ao leitor (só oculto o nome por privacidade do mesmo).
Mais uma vez: Um Santo e Feliz Natal para todos!
Como tenho apresentado aqui algumas "imagens" do passado, surgiu uma discussão saudável sobre a localização da antiga aldeia de Entre Águas (ou Entre as Agoas, Entre Ambas as Águas, Moínho de Entre Águas, etc).
Inicialmente pensei que a localização fosse junto ao Escoural, mas o esclarecimento de um leitor do blog veio colocar mais luz na questão:
"... ESTE SITIO FICA JUNTO AO LUGAR CONHECIDO HOJE POR PORTO SOBREIRO. O SITIO ENTRE ÁGUAS É MAIS PRECISAMENTE ONDE HOJE SE ENCONTRAM AS INSTALAÇÕES DA JÁ FECHADA FÁBRICA DE REFRIGERANTES DUARTE GIL & IRMÃOS MAIS CONHECIDA POR FABRICA DE REFRIGERANTES PORTO SOBREIRO . SE TIVER OPORTUNIDADE AO PASSAR PELA ESTRADA QUE VAI DO PORTO SOBREIRO PARA A TABOEIRA ANTES DA PONTE AO OLHAR PARA O SEU LADO ESQUERDO VERIFICARÁ QUE EXISTEM DUAS VALAS REIAS , UMA QUE VEM DO LADO NASCENTE E A OUTRA QUE VEM DO LADO SUL ( AZENHA ) . VERIFICARÁ AINDA QUE EXISTE EMBORA EM RUÍNAS UMA CONSTRUÇÃO ONDE FUNCIONARAM EM TEMPOS ANTIGOS DOIS MOINHOS . ERAM CONHECIDOS PELOS MOINHOS DO "TI RITO". SE PERGUNTAR A ALGUMA PESSOA MAIS VELHA AQUI DA ZONA ONDE É QUE FICA A PONTE DAS ENTRE ÁGUAS VAI FICAR COMPLETAMENTE ESCLARECIDO DA ORIGEM DO NOME PARA ESTE SITIO .
AO QUE JULGO SABER A CM CANTANHEDE COMPROU ESTES TERRENOS ONDE SE ENCONTRAM OS MOINHOS ( RUINAS ) PARA AI CONSTRUIR UM PARQUE MULTIUSOS RECUPERANDO DESTA FORMA TAMBÉM OS MOINHOS."
Agradeço desde já ao leitor (só oculto o nome por privacidade do mesmo).
Mais uma vez: Um Santo e Feliz Natal para todos!
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Baú da Gesteira: Registos de Baptismo (Cadima) 1631-1640
Entre 1631 e 1640 foram baptizadas 6 crianças da Gesteira (4 crianças a mais que no período anterior). Existiam já então pelo menos 4 famílias na aldeia.
Neste intervalo de tempo foram baptizadas 244 crianças, menos 72 que no período anterior. Esta redução pode indicar que algumas crianças não foram registadas ou que houve uma natalidade inferior ou até que as pessoas de delocaram para fora do couto de Cadima.
Neste intervalo de tempo foram baptizadas 244 crianças, menos 72 que no período anterior. Esta redução pode indicar que algumas crianças não foram registadas ou que houve uma natalidade inferior ou até que as pessoas de delocaram para fora do couto de Cadima.
Nomes de Baptismo
No que diz respeito aos nomes de baptismo, os mais comuns foram os seguintes:- Manoel 21,5%
- Maria 17%
- Isabel 11%
- António 9%
- Domingos 6,5%
- Francisco 5,5%
- Ana 5,5%
- Catarina 4,5%
- João 3,5%
- Tomé 3,5%
Foram baptizados 56% de rapazes, 44% de raparigas.
Mais de um terço das crianças do sexo feminino eram baptizadas com o nome de Maria (39,5%).
Mais de um terço das crianças do sexo masculino eram baptizadas com o nome Manoel (37,5%).
Localidades
A lista que segue apresenta as localidades e o seu peso no que diz respeito ao número de baptizados registados entre 1631 e 1640 (este será um bom indicador do tamanho e importância de cada localidade, percentagens arredondadas):- Zambujal 19,5% (+ 0,0%)
- Guimera 17% (+ 0,0%)
- Cadima 15% (- 1,5%)
- Ribeira (Fervença) 10,5% (+4,0%)
- Casal 8,5% (+0,5%)
- Escoural 4,5% (+ 1,5%)
- Água Doce 3,5% (- 1,5%)
- Póvoa 3,5% (- 1,05)
- Gesteira 2,5% (+ 2,0%)
- Palhagueira (Palheira) 2% (+ 0,5%)
- Taboeira 2% (+ 1,5%)
- Sanguinheira 2% (+ 1,5%)
- Grou 1,5% (- 1,0%)
- Corgo do Encheiro 1,5% (+ 1,0%)
- Desconhecido/Ilegível 1,5% (+ 1,0%)
- Olho 1% (- 3,0%)
- Carvalheira 1% (- 1,0%)
- Quinta do Manuel Andrade 1% (+ 1,0%)
- Aljuriça 0,5% (- 1,0%)
- Entre Águas 0,5% (- 0,5%)
- Azenha 0,5% (+ 0,0%)
- Cabeça Alta 0,5% (+ 0,0%)
Na denominação de Ribeira incluo os registos de Ribeira, Ribeira da Fervença e Fervença, mas esta denominação era bem mais alargada e representava com certeza as populações que viviam junto às grandes e profundas ribeiras que cruzavam o couto.
Na denominação de Póvoa inclui-se os nomes de Póvoa, Póvoa da Ribeira, Córrego da Póvoa, Ribeira da Póvoa e Póvoa de Alçaperna.
Nestes 10 anos não foram registados quaisquer baptismos no Braganção, Lagoa Negra, Seixo, Lagoa Seca, Porto Sobreiro e Marinhal.
Curiosidades dos nomes de localidades durante este período:
- Novas localidades refentes à naturalidade das crianças baptizadas ou dos padrinhos: Moutta (1636), Córrego das Fradegas (1638).
- Em 7 de Maio de 1631 foi baptizada uma criança, filha de pais solteiros, o avô paterno era o Alcaide de Montemor-o-Velho, António Simões;
- Num baptismo de 1635 faz-se referência a uma madrinha casada com Manuel Jorge Recachado da Guimera;
- Aos 13 de Novembro de 1636 foi faptizada uma criança cuja madrinha era da Moutta;
- Em 13 de Setembro de 1637 foi baptizada uma criança que teve por madrinha Domingas de Sá, do Corticeiro, freguesia dos Covões;
- Em 1638 e 1639, uma madrinha e um padrinho, respectivamente, eram residentes no Córrego das Fradegas;
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Sotaque da Gesteira: "Num caminho assim só dava mesmo para encepar."
Encepar é mais um termo das regiões da Gândara e da Bairrada, que significa tropeçar ou esbarrar em qualquer coisa, normalmente no chão, no caminho. Devendo ser originária de tropeções que ocorriam quando as pessoas se deslocavam em terrenos de antigos pinhais que haviam sido cortados há pouco tempo, e tropeçavam nos cepos que por lá ficavam.
Nos dicionários de português, o verbo encepar significa "pôr em cepo", o que não é exactamente a mesma coisa.
Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu... Encepei no caminho, ai Jasus que lá vou eu!"
Nos dicionários de português, o verbo encepar significa "pôr em cepo", o que não é exactamente a mesma coisa.
Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu... Encepei no caminho, ai Jasus que lá vou eu!"
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