Não podendo conter-se, certa tarde, a mãe de André quis meter o rapaz a confesso. Com cuidado e carinho ela indagou:
— Meu filho! Que estás vendo dentro da tigela do caldo? Olha que o deixas esfriar!
Ele acusou o toque. Mostrou-se embaraçado, tentou reagir, mas em vão. E confessou:
— Ando preocupado, mãe!
Ela sorriu-lhe docemente.
— Eu sei, André! As mães sabem sempre tudo, mesmo quando os filhos têm segredos para elas...
O rapaz abanou a cabeça.
— Não tenho segredos para si, mãe! Desde que o pai morreu, a mãe é toda a minha razão de trabalhar!
Maliciosamente, ela retorquiu:
— ... Mas já não sou todo o teu pensamento!
André olhou-a, apreensivo.
— Mãe! Não pense que...
— Eu sei, meu filho. Não és só tu que vives a pensar nessa mulher. Eu bem oiço os outros! E bem oiço, também, como as outras mulheres a temem.
O rapaz olhou a mãe de frente, pela primeira vez desde que a conversa começara.
— Temem-na... porquê?
— Até eu a receio, André! Quem é ela? Donde veio? Que faz aqui, neste nosso cantinho, quando a terra é tão grande?
As sobrancelhas de André franziram-se, num sinal de arrelia ou desgosto.
— Ela não faz mal a ninguém! Poucos são capazes de a ver e nenhum ainda lhe chegou à fala!
— Precisamente por isso. É estranha, essa mulher. Acredita, filho! O meu coração anda muito pequenino, muito medroso dentro do meu peito!
De novo o ar de interrogação magoada.
— Medroso? Mas porquê?... É certo que também a acho estranha...
Era arrastada, agora, a sua voz. O olhar perdia-se sobre a mesa. A mãe fitava-o, inquieta. E ele continuava, numa divagação:
— Estranha e linda!... Miraculosamente linda!
Foi a vez da mãe de André o interromper:
— Linda? Nem por isso, meu filho. Apenas tem nos olhos qualquer coisa que me aflige…
André olhou a mãe com entusiasmo.
— Já reparou nos olhos dela?... Parece que chamam por nós! E não sabemos resistir a esse chamamento!
Soturnamente, a mãe de André comentou:
— Até parece obra do Demónio!
Ele afligiu-se.
— Por Deus, mãe, não diga isso! Não calcula o mal que essas palavras podem causar-me. Ando quase louco. Quase louco!...
— Filho, meu filho, toma cuidado!... É a tua mãe que te pede!
Ele abanou a cabeça e, com um gesto brusco, pôs o caldo de lado, enquanto dizia:
— Tenho de falar com ela! Tenho de saber quem é! E já! Já!
Levantou-se e saiu apressado, quase correndo, a caminho do local onde aquela estranha gente levantara a sua tenda. À medida que se ia encontrando com os outros habitantes do lugar, estes, que o consideravam como um chefe, olhavam-no boquiabertos, ou persignavam-se, tal o desatino em que ele corria agora para se encontrar com a bela desconhecida.
Chegou breve ao seu destino. Estacou. E o seu olhar traduziu o enleio do seu coração.
De pé, encostada a um pinheiro, olhos perdidos no horizonte, corpo esbelto coberto por uma túnica, cabelos soltos ao vento, ela ali estava, como se o esperasse já!
André resolveu aproximar-se. Devagar. O coração batia-lhe violentamente no peito. O olhar da jovem desconhecida pousou sobre o seu rosto e ali ficou, fixo no olhar de André, até o ver bem junto dela.
Atarantado, ele formulou uma desculpa:
— Perdoa-me, se venho molestar-te!
Numa voz bonita e profunda, ela respondeu, com um leve sorriso:
— Há muito que te esperava. Porque resististe assim?
Ele olhou-a de novo, com excitação, antes de confessar:
— Tu amedrontas-me! Quem és? Donde vieste?
A voz da jovem adoçou-se mais.
— Sou Cadima e nem sei donde venho! Perdi minha mãe à nascença e ando a vaguear com meu pai e com os seus companheiros, de terra em terra. Para eles, não há distâncias, nem fronteiras. Parece que o mundo inteiro lhes pertence! E são felizes, à sua maneira. Eu não. Às vezes, sinto-me cansada!
O olhar e a voz de André brilharam de ansiedade.
— Queres dizer... que partirás daqui... qualquer dia?
— Eles assim o querem!
— E tu?
— Eu...
Ela hesitou. Olhou-o intencionalmente e decidiu-se a terminar o seu pensamento:
— Se tu quiseres... ficarei para sempre na terra onde habitares.
André sentiu-se reanimar. O entusiasmo deu-lhe novo brilho ao olhar e mais alento à voz.
— Cadima! A tua expressão parece-me sincera. Mas não tentes iludir-me! Tu já deves saber o que se passa: os homens amam-te tanto quanto as mulheres te odeiam!
Ela acenou ligeiramente com a cabeça, em sinal afirmativo. André continuou, agora com menos excitação:
— Por mim... deixei de ser o mesmo desde que desceste à nossa planície, outrora tão tranquila!
Cadima sorriu, enleada, olhando a paisagem que a rodeava.
— E quão belo é tudo isto! Aqui, tenho experimentado sensações diferentes. Sinto-me outra. Chego a ter medo de certas frases de meu pai e noto agora que um sentimento estranho me obriga a pensar constantemente em ti.
Houve um curtíssimo silêncio, que ela logo quebrou:
— Chamas-te André, não é verdade?
— Sim, chamo-me André. Já não tenho pai e sou o amparo da minha mãe. Não queiras, portanto, aniquilar a minha vida por um simples capricho. Seria capaz de matar-te, se tal fizesses!
Cadima sorriu. Um sorriso estranho, que quase a iluminava.
— Nada temas, André. Só te quero a ti. Só tu me agradaste. Diz uma palavra e ficarei contigo!
Ele olhou-a, perplexo.
— Uma palavra?... E que desejas que te diga?
— Que na verdade me amas. Por mim, e não pelo mistério que se estende à minha volta.
André vincou as unhas nas palmas das mãos, a refrear o impulso que o levaria a encher de beijos as mãos brancas de Cadima. A sua respiração fazia-se alta. Houve um momento sem palavras e, por fim, André perguntou ansiosamente à jovem desconhecida:
— Serás capaz de respeitar e amar a minha mãe?
Ela olhou-o com ternura. Uma ternura imensa no seu olhar de fogo.
— André! Eu nunca soube o que era ter mãe. Até essa felicidade tu me darias!
A alegria de André subiu ao auge.
— Minha doce Cadima! Eu julgo-me no Céu! Vem comigo. Quero apresentar-te àquela que me deu o ser e tanto trabalhou para que eu me fizesse um homem, minha Cadima!
A jovem estremeceu. André pegara-lhe num dos braços. Ela libertou-se suavemente do jugo dos dedos de André. Na sua voz surgiu algo de pesado e triste:
— Agora, não. Meu pai está a chegar. Pressinto no meu peito que algo de grave ou grandioso irá acontecer. E é preciso que tu não estejas presente!
André mostrou-se contrariado.
— Continuas misteriosa! Porque não te abres comigo, se é certo que já me pertences pelo coração?
Ela soltou um fundo suspiro. Antes de responder olhou a terra amarelada, os pinheiros de agulhas verdes, com que brincava o vento. Escutou o seu murmurar, como ondulação de oceano. E só depois se decidiu a falar.
— André! Ouve isto que é necessário que saibas: para poder pertencer-te... terei de desligar-me completamente de meu pai.
Ele surpreendeu-se:
— Desligar?
— Sim. Não me perguntes mais nada!
— E... serás capaz disso?
Cadima olhou-o novamente nos olhos. Ele viu lágrimas a tentarem invadir o rosto bonito da jovem e sentiu-se enternecer. Mas já ela lhe falava, numa voz cheia de suavidade e tristeza:
— André! Tenho visto várias vezes tua mãe entrar na capelinha e rezar. Pois vai depressa e pede-lhe que reze também por mim!
As últimas palavras já foram ditas com a invasão das lágrimas. Cadima chorava. Chorava silenciosamente e ele sentiu-se enlouquecer.
— Não! Não quero ver-te chorar! Se soubesses como me doem as tuas lágrimas! Que te aflige? Conta-me tudo!
Ela abanou a cabeça negativamente e disse, num murmúrio:
— Vai. Vai depressa, André. Vai ter com a tua mãe e que ela não se esqueça de orar por mim!
E como o rapaz ficasse imóvel a olhá-la, ela tornou, agora com firmeza:
— Vai depressa, se queres salvar-me!
André não quis ouvir mais. Voltou para a povoação, com o peito opresso por um estranho, trágico pressentimento. Correu, tal como correra para ir ao encontro de Cadima. Quando a mãe o viu de volta, foi ao seu encontro. E os dois, sozinhos, ficaram falando dessa estranha visita de André à tenda da bela desconhecida...
Entretanto, na planície arenosa, o pai de Cadima aparecia. Vinha apressado e mal viu a filha ordenou, de modo imperioso:
— Cadima! Vamos partir imediatamente!
Ela sobressaltou-se.
— Para onde, meu pai?
— Para onde deseja aquele que me governa!
Pela primeira vez ela sentiu forças para perguntar.
— E quem é esse que o governa?
O pai olhou-a de frente, num sorriso mau.
— Ainda não compreendeste? Contra ele nada poderás! Ele ouviu a tua conversa de há pouco. Foi ele que me mandou aqui. Apressa-te, pois! Vamos trabalhar para outra terra.
Muito pálida, Cadima tentou mostrar-se enérgica.
— Trabalhar? Chama a isto trabalhar? Pois saiba que estou farta de causar desordens, assassínios e suicídios! Os meus olhos espalham a morte e a desolação! Para que se servem de mim? Eu não quero, ouviu bem? Não quero!
O velho gritou:
— És minha filha! Pertences-me!
— Pois deixarei de pertencer-lhe!
O homem rangeu os dentes.
— Que estás dizendo? Neste momento também ele te ouve e não consentirá que nos deixes!
Cada vez mais trémula mas tentando reagir, Cadima exclamou:
— Ele nada pode contra a Cruz!
O velho horrorizou-se.
— Cala-te! Não pronuncies essa palavra!
— É a única que me poderá trazer a salvação!
A raiva do velho continuava em crescendo:
— Matar-te-ei, se pensares ficar aqui!
Cadima olhou em volta com ternura e os seus olhos beijaram em pensamento a bela paisagem. Depois respondeu, serena:
— Prefiro a morte a ser escrava do seu senhor! Neste momento, alguém pede por mim. Sinto novas forças a alentar a minha alma. Parta, parta sozinho, se quiser continuar ao serviço do mal! Eu conheci o amor... e por ele me quero salvar!
O homem fitava-a agora com estranheza.
— Reconsidera, Cadima! Vais perder-te!
— Não se perde quem ama!
Mais sereno, o pai tornou:
— Também eu conheci um dia o amor! Foi desse amor que tu nasceste. Mas ela... foi morta por ele... e eu continuei pelo mundo fora. Já não tenho salvação e não ouso ficar sozinho!
Animosa, Cadima tentou ajudá-lo.
— Encha-se de coragem, meu pai, e renegue-o também!
Os olhos do homem faiscaram e a sua voz voltou a ficar rouca de furor.
— Cala-te, filha ingrata! Tens de partir comigo!
Cadima assustou-se. E gritou também:
— Não quero! Não quero partir! Ficarei aqui nesta terra abençoada!
Ele troçou no meio da cólera.
— Abençoada? Esta é terra onde impera a areia e falta a água para dessedentar os homens!
Cadima não se deixou vencer. Retorquiu:
— Esta terra será fértil e dará de beber aos que tiverem sede!
Nesse momento, um enorme trovão se ouviu e a terra tremeu assustadoramente. Cadima fez-se pálida. Então, o pai da jovem desconhecida apontou na sua frente.
— Olha, Cadima. O meu senhor está ali! Vem ao teu encontro. Não queiras perder-te, nem perder o único homem que dizes ter amado!
Sentindo uma força interior, Cadima exclamou, enérgica:
— Afasta-te, poder do mal! Eu te renego!
O velho enfureceu-se.
— Louca! Ainda conseguirás desgraçar-me! Se lhe fugires, levarás a desgraça contigo e ela alastrar-se-á àqueles para quem, neste momento, vai o teu coração!
As lágrimas voltaram a aflorar aos olhos da rapariga. Havia uma enorme tristeza estampada no seu rosto. O velho sorriu, julgando ter vencido. A poucos passos, um homem de olhar estranho fitava-a, tentando subjugá-la. Mas Cadima, elevando os olhos ao céu, deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto, e sem medo proferiu este estranho pedido:
— Se o mal que eu causei aos outros, se os crimes que fui obrigada a cometer puderem ser redimidos pela renúncia à minha felicidade na terra, que eu nunca mais veja André! Que ele se transforme num homem poderoso e feliz e que eu — livre finalmente das trevas — possa ver a Deus no Céu!
Nesse mesmo momento, o Demónio correu para ela para a agarrar.
Mas, antes que pudesse alcançá-la, a terra abriu-se como por encanto e Cadima desapareceu. E no lugar onde ela estivera, duas fontes brotaram da terra, jorrando água de um metro de altura.
Numa praga, o Demónio desapareceu também, levando consigo o velho.
O cantar da água fez-se ouvir em breve, deixando as gentes estupefactas.
Acorreu toda a povoação para observar tão estranho fenómeno. André e a mãe também vieram. Com grande espanto do rapaz, Cadima e a sua tenda tinham desaparecido!
Alucinado, André começou a chamar:
— Cadima! Cadima, onde estás? Para onde te levaram?
Então o barulho da água acalmou e ouviu-se um sussurro:
— Estou aqui... na água que brota da terra!
André olhou a mãe. Parecia louco. Os olhos arrasaram-se de lágrimas.
— Cadima! Porque me fugiste?
O sussurro voltou a escutar-se:
— Fugi-te para bem da minha alma e teu proveito, já que foste o meu grande amor!
André caiu de joelhos sobre a terra, chorando e dizendo:
— Nunca mais verei os teus olhos?
Ouviu-se de novo a voz de Cadima:
— Os meus olhos estarão sempre presentes nesta terra onde tu habitas. Eu to prometi! Ficarei aqui contigo. E os meus olhos aí estão transformados nessas fontes que darão de beber aos que tiverem sede!
André voltou a dizer alto, no meio da sua dor:
— Mas como poderei viver sem ti?
Na voz da água cantante, Cadima fez-se ouvir pela última vez:
— Viverás sem mim enquanto Deus quiser! Depois, virás ter comigo, e na nossa frente, então, ficará uma vida eterna!
André beijou a terra que a água cobria. E prometeu:
— Cadima! A esta terra que eu vim habitar e que tu, com os teus olhos, tornarás fértil, daremos o teu nome — Cadima — em recordação da tua passagem por aqui! E até que Deus queira, aqui virei todos os dias para te ouvir, já que não te poderei ver!
E a água, deslizando na terra, veio acariciar-lhe os olhos, os lábios, as mãos!...
Os tempos passaram. Séculos e séculos em procissão. Pois ainda nos nossos dias, nos campos que hoje pertencem ao lugar de Fervença, na freguesia de Cadima, lá está uma das fontes a que chamam «os olhos de Fervença» e que outrora eram chamados «os olhos de Cadima».
Fonte: MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 301-308


