Quando, na Gesteira, couto de Cadima, Manuel Rodrigues Padelho pediu Bárbara da Cruz em namoro, por volta de 1765, na presença dos pais dela, ninguém imaginaria a complicação que seria nem o destino tão atribulado e azarado desse casal.
É uma parte dessa história que conto AQUI (para quem tem Facebook) ou AQUI (para quem tem conta no Academia).
domingo, 10 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
Baú da Gesteira: A primeira epidemia de cólera na Europa (1833)
Como introdução a um trabalho que publicarei em breve, sobre o efeito da epidemia de cholera morbus, de 1833, na região Gandaresa apresento aqui apenas alguns dados preliminares.
A cólera é originária da Ásia, mais propriamente no rio Ganges (Índia), a partir do
qual se veio a espalhar pelo mundo inteiro através das rotas comerciais. Primeiro entrou na Rússia, e depois propagou-se para o resto da Europa e daqui para a América.
Os primeiros sintomas da cólera são diarreias, depois desidratação, febres altas, vómitos e dores abdominais. De seguida dá-se a queda acentuada da pressão arterial, da temperatura corporal e a morte.
Em 1835, e por causa desta epidemia, são criados oficialmente os cemitérios públicos e passa a ser proibido sepultar os mortos dentro das igrejas.
Sabe-se que a cólera chegou a Portugal, mais precisamente ao Porto, a bordo do vapor London Marchant, com o general Solignac e 200 soldados belgas, que vinham de Ostende, Bélgica, para ajudar os liberais (D. Pedro) na guerra civil (Referência: GOMES, Bernardino António. Aperçu historique sur les épidémies de choléra-morbus et de fièvre jaune en Portugal, dans les années de 1833-1865. Constantinopla: Imprimerie Centrale. 1866.).
Observou-se durante o cerco do Porto, e depois, espalhou-se pelo país. A epidemia de cólera de 1833 acabou por causar mais de quarenta mil mortos, um número mais elevado do que o da própria guerra, na altura. Depois dessa epidemia, seguiram-se mais vagas epidémicas, impulsionadas pela falta de higiene nas casas e nas ruas, pelo uso de água e alimentos contaminados e pela concentração dos doentes em pequenos espaços.
Ora, a região do couto de Cadima não fugiu a esta epidemia de 1833. Não se sabe ao certo quando a mesmo entrou no couto ou na região, mas pelos registos paroquiais pode-se ter uma ideia bastante precisa sobre as datas das primeiras mortes causadas pelo cólera.
Como exemplo vejamos o histórico de registo de óbitos para Cadima (incluia então as actuais freguesias de Cadima e da Sanguinheira):
Como se pode observar, em 1833 faleceram muits mais indivíduos que nos anos anteriores, de facto, morrem mais de 3 vezes e meia do que a média dos 5 anos antecedentes (79 óbitos por ano).
O incremento de falecimentos começa a observar-se em Junho de 1833 e apenas regressa ao normal em inícios de Setembro do mesmo ano. Em Cadima, o número de mortes teve o seu pico entre 2 e 12 de Agosto de 1833, quando faleceram 119 pessoas em apenas 11 dias!
Também na Gesteira o número de falecimentos aumentou drasticamente, como se pode observar no quadro seguinte. Aceitam-se teorias para algumas particularidades os dados, sobretudo o facto de na vila de Cadima (na altura sede de Concelho) apenas ter falecido 1 individuo no período de 15 de Junho a 15 de Setembro, quando em todas as outras localidades apresentadas, o número de mortes aumentou bastante.
Os valores na Gesteira, Zambujal, Fervença e Taboeira aumentaram bastante (pode aliás ver-se a discriminação do número de mortes no período mais crítico). Coloquei também os dados para Vila Nova de Outil, onde se observa o mesmo.
No entanto, para Cadima e para a Sanguinheira, os valores praticamente não mudam. Será que Cadima, sendo na altura sede de concelho, teria tomado medidas para se afastar do resto do couto? Terão impedido a restante população de entrar em Cadima? Na Sanguinheira já se observam 4 mortes, mas mesmo assim o valor total continua semelhante aos valores observados para os anos antecedentes. Curioso.
No Zambujal faleceram 42 pessoas entre 15 de Junho e 15 de Setembro de 1833, sendo, de longe, a localidade mais afectada pela epidemia (também seria a mais populosa), seguido da Fervença, com 28 óbitos (também a Fervença bastante populosa na altura).
Posteriormente adicionarei mais dados a este artigo.
A cólera é originária da Ásia, mais propriamente no rio Ganges (Índia), a partir do
qual se veio a espalhar pelo mundo inteiro através das rotas comerciais. Primeiro entrou na Rússia, e depois propagou-se para o resto da Europa e daqui para a América.
Os primeiros sintomas da cólera são diarreias, depois desidratação, febres altas, vómitos e dores abdominais. De seguida dá-se a queda acentuada da pressão arterial, da temperatura corporal e a morte.
Em 1835, e por causa desta epidemia, são criados oficialmente os cemitérios públicos e passa a ser proibido sepultar os mortos dentro das igrejas.
Sabe-se que a cólera chegou a Portugal, mais precisamente ao Porto, a bordo do vapor London Marchant, com o general Solignac e 200 soldados belgas, que vinham de Ostende, Bélgica, para ajudar os liberais (D. Pedro) na guerra civil (Referência: GOMES, Bernardino António. Aperçu historique sur les épidémies de choléra-morbus et de fièvre jaune en Portugal, dans les années de 1833-1865. Constantinopla: Imprimerie Centrale. 1866.).
Observou-se durante o cerco do Porto, e depois, espalhou-se pelo país. A epidemia de cólera de 1833 acabou por causar mais de quarenta mil mortos, um número mais elevado do que o da própria guerra, na altura. Depois dessa epidemia, seguiram-se mais vagas epidémicas, impulsionadas pela falta de higiene nas casas e nas ruas, pelo uso de água e alimentos contaminados e pela concentração dos doentes em pequenos espaços.
Ora, a região do couto de Cadima não fugiu a esta epidemia de 1833. Não se sabe ao certo quando a mesmo entrou no couto ou na região, mas pelos registos paroquiais pode-se ter uma ideia bastante precisa sobre as datas das primeiras mortes causadas pelo cólera.
Como exemplo vejamos o histórico de registo de óbitos para Cadima (incluia então as actuais freguesias de Cadima e da Sanguinheira):
- 1828 - 77 óbitos
- 1829 - 122 óbitos
- 1820 - 55 óbitos
- 1831 - 72 óbitos
- 1832 - 69 óbitos
- 1833 - 288 óbitos
- 1834 - 102 óbitos
| Quadro 1: Evolução dos Óbitos para algumas localidades (1828-1834) |
O incremento de falecimentos começa a observar-se em Junho de 1833 e apenas regressa ao normal em inícios de Setembro do mesmo ano. Em Cadima, o número de mortes teve o seu pico entre 2 e 12 de Agosto de 1833, quando faleceram 119 pessoas em apenas 11 dias!
Também na Gesteira o número de falecimentos aumentou drasticamente, como se pode observar no quadro seguinte. Aceitam-se teorias para algumas particularidades os dados, sobretudo o facto de na vila de Cadima (na altura sede de Concelho) apenas ter falecido 1 individuo no período de 15 de Junho a 15 de Setembro, quando em todas as outras localidades apresentadas, o número de mortes aumentou bastante.
Os valores na Gesteira, Zambujal, Fervença e Taboeira aumentaram bastante (pode aliás ver-se a discriminação do número de mortes no período mais crítico). Coloquei também os dados para Vila Nova de Outil, onde se observa o mesmo.
No entanto, para Cadima e para a Sanguinheira, os valores praticamente não mudam. Será que Cadima, sendo na altura sede de concelho, teria tomado medidas para se afastar do resto do couto? Terão impedido a restante população de entrar em Cadima? Na Sanguinheira já se observam 4 mortes, mas mesmo assim o valor total continua semelhante aos valores observados para os anos antecedentes. Curioso.
No Zambujal faleceram 42 pessoas entre 15 de Junho e 15 de Setembro de 1833, sendo, de longe, a localidade mais afectada pela epidemia (também seria a mais populosa), seguido da Fervença, com 28 óbitos (também a Fervença bastante populosa na altura).
Posteriormente adicionarei mais dados a este artigo.
sábado, 6 de outubro de 2018
Baú da Gesteira: Cadima nas notícias - séculos XIX e XX
Fiz uma recolha de notícias relacionadas com o/a couto/concelho/freguesia de Cadima desde meados do século XIX até meados do século XX. São apenas algumas notícias que falam de algumas pessoas naturais ou moradoras na região, bem como de acontecimentos, desastres, etc. Esta lista está, claramente, incompleta, e representa o que se pode encontar actualmente digitalizado on-line. No entanto, algumas notícias são muito interessantes, curiosas e valiosas para quem gosta da história da região de Cadima.
Segue a recolha de seguida:
A Freguesia de Cadima vista pela comunicação social (1843-1946)
Segue a recolha de seguida:
A Freguesia de Cadima vista pela comunicação social (1843-1946)
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Baú da Gesteira: O Gesteirense que quase fugiu para o Brasil
Notícia retirada do "Diario Catholico de Portugal", de 16 de maio de 1907.
Neste jornal católico Lisboeta, na sua edição de 16 de maio de 1907 aparece uma notícia entitulada "Prisão a Bordo".
A história é de um homem, que nasceu na Gesteira em 12 de junho de 1883, chamado Manuel da Silva Moço (também denominado Manuel da Silva Quintão, na notícia).
Manuel era filho de José da Silva Moço e de Maria de Jesus naturais e moradores na Gesteira, neto paterno de José da Silva e de Bárbara de Jesus, e materno de Alexandre Gonçalves e de Maria de Jesus, todos da Gesteira.
Manuel da Silva casou primeiro com Maria do Espírito Santo em 7 de janeiro de 1905. Esta era filha de José Maria Camarinho e de Maria da Luza, da Quintã. No entanto, Maria do Espirito Santo viria a falecer nesse mesmo ano de 1905 a 23 de novembro, muito provavelmente por complicações pós-parto, pois tivera uma filha Maria no dia 12 de novembro, mas que viria também a falecer a 16 de novembro.
Manuel da Silva voltou a casar com uma cunhada, Amélia do Espírito Santo, de 17 anos, em 21 de abril de 1906.
Ora, segundo nos conta a notícia, o vapor "Loanda" que chegou ao Tejo no dia 15 de maio de 1907, transportava Manuel da Silva Moço que foi entregue à polícia do porto. Foi posteriormente enviado ao serviço de instrução criminal pelos soldados 149 e 45 da 3ª companhia da guarda municipal.
Manuel, tinha 23 anos, era dito natural da "Gesteira da Quinta", da freguesia de Cadeiras, concelho de Cantanhede. Aqui há dois erros na notícia, ele era natural da Gesteira e morador na Quintã, e não há freguesia de Cadeiras, mas sim Cadima.
Aparentemente, Manuel vivia na Quintã desde 1903, mais ou menos, criando um estabelecimento de fazendas, mercearia e outros artigos, tendo para isso pedido crédito a vários negociantes.
Mas o negócio não parece ter-lhe corrido sempre bem, sendo que três meses antes (talvez em fevereiro de 1907) havia chamado os seus credores que já o tinham colocado em tribunal, e vendeu os bens e algumas propriedades que tinha, tendo feito uma "phantástica venda" a um cunhado seu, por 45.000 reis. Mas não deve ter usado esse dinheiro para soldar as suas dívidas, foi antes a Coimbra, tirou o passaporte no governo civil de Coimbra, e foi depois para Lisboa onde embarcou no paquete inglês "Orissa", no dia 1 de maio de 1907, com o destino de Santos, no Brasil. Como, na altura, a polícia não tinha recebido ainda o mandato de captura, ele lá seguiu no paquete a caminho do Brasil. A polícia depois telegrafou para a polícia da Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde o paquete foi forçado a fazer uma escala, chegando no dia 6 de maio. Manuel da Silva foi detido, e assim esteve 6 horas até ser transferido para o paquete "Loanda", que o traria a Lisboa .
Neste jornal católico Lisboeta, na sua edição de 16 de maio de 1907 aparece uma notícia entitulada "Prisão a Bordo".
A história é de um homem, que nasceu na Gesteira em 12 de junho de 1883, chamado Manuel da Silva Moço (também denominado Manuel da Silva Quintão, na notícia).
Assinatura de Manuel da Silva aquando do seu primeiro casamento em 1905
Manuel era filho de José da Silva Moço e de Maria de Jesus naturais e moradores na Gesteira, neto paterno de José da Silva e de Bárbara de Jesus, e materno de Alexandre Gonçalves e de Maria de Jesus, todos da Gesteira.
Manuel da Silva casou primeiro com Maria do Espírito Santo em 7 de janeiro de 1905. Esta era filha de José Maria Camarinho e de Maria da Luza, da Quintã. No entanto, Maria do Espirito Santo viria a falecer nesse mesmo ano de 1905 a 23 de novembro, muito provavelmente por complicações pós-parto, pois tivera uma filha Maria no dia 12 de novembro, mas que viria também a falecer a 16 de novembro.
Manuel da Silva voltou a casar com uma cunhada, Amélia do Espírito Santo, de 17 anos, em 21 de abril de 1906.
Ora, segundo nos conta a notícia, o vapor "Loanda" que chegou ao Tejo no dia 15 de maio de 1907, transportava Manuel da Silva Moço que foi entregue à polícia do porto. Foi posteriormente enviado ao serviço de instrução criminal pelos soldados 149 e 45 da 3ª companhia da guarda municipal.
Manuel, tinha 23 anos, era dito natural da "Gesteira da Quinta", da freguesia de Cadeiras, concelho de Cantanhede. Aqui há dois erros na notícia, ele era natural da Gesteira e morador na Quintã, e não há freguesia de Cadeiras, mas sim Cadima.
Aparentemente, Manuel vivia na Quintã desde 1903, mais ou menos, criando um estabelecimento de fazendas, mercearia e outros artigos, tendo para isso pedido crédito a vários negociantes.
Mas o negócio não parece ter-lhe corrido sempre bem, sendo que três meses antes (talvez em fevereiro de 1907) havia chamado os seus credores que já o tinham colocado em tribunal, e vendeu os bens e algumas propriedades que tinha, tendo feito uma "phantástica venda" a um cunhado seu, por 45.000 reis. Mas não deve ter usado esse dinheiro para soldar as suas dívidas, foi antes a Coimbra, tirou o passaporte no governo civil de Coimbra, e foi depois para Lisboa onde embarcou no paquete inglês "Orissa", no dia 1 de maio de 1907, com o destino de Santos, no Brasil. Como, na altura, a polícia não tinha recebido ainda o mandato de captura, ele lá seguiu no paquete a caminho do Brasil. A polícia depois telegrafou para a polícia da Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde o paquete foi forçado a fazer uma escala, chegando no dia 6 de maio. Manuel da Silva foi detido, e assim esteve 6 horas até ser transferido para o paquete "Loanda", que o traria a Lisboa .
Fonte da notícia: Diario Catholico -16 de maio de 1907
sábado, 2 de setembro de 2017
Música daqui: Fado e afins com raízes na Gesteira
A Suzi Silva, uma artista Gesteirense e internacional, acaba de lançar um novo trabalho bilingue, que acaba por ser uma mistura de Fado e Jazz.
O trabalho, gravado num estúdio em Montreal, no Canadá, inclui as seguintes obras:
O trabalho completo pode ser apreciado em https://suzi-silva.bandcamp.com/album/fadazz
Apreciem e partilhem.
O trabalho, gravado num estúdio em Montreal, no Canadá, inclui as seguintes obras:
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fad'AZZ | Fado Mestiço - Amanhã | Suzi Silva
O trabalho completo pode ser apreciado em https://suzi-silva.bandcamp.com/album/fadazz
Apreciem e partilhem.
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domingo, 30 de outubro de 2016
Seminário sobre Genealogia na Sanguinheira (28-10-2016) - Apresentação
A apresentação com os dados e as referências encontra-se no link seguinte:
https://drive.google.com/file/d/0B1Me2x-y-YiPZm1NeHdkMGRzU0E/view?usp=sharing
Cumprimentos,
Nuno Silva
https://drive.google.com/file/d/0B1Me2x-y-YiPZm1NeHdkMGRzU0E/view?usp=sharing
Cumprimentos,
Nuno Silva
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Seminário sobre Genealogia na Sanguinheira
Olá.
Irei administrar o 1º Seminário cultural da Junta de Freguesia da Sanguinheira no próximo dia 28 de outubro de 2016 com uma introdução à pesquisa genealógica, em particular na região Gandaresa do antigo couto de Cadima onde se integrava a actual freguesia da Sanguinheira.
O seminário ocorrerá no salão nobre da junta de freguesia da Sanguinheira, junto à igreja paroquial.
Segue o anúncio do evento.
Ligação para o Evento no Facebook.
Irei administrar o 1º Seminário cultural da Junta de Freguesia da Sanguinheira no próximo dia 28 de outubro de 2016 com uma introdução à pesquisa genealógica, em particular na região Gandaresa do antigo couto de Cadima onde se integrava a actual freguesia da Sanguinheira.
O seminário ocorrerá no salão nobre da junta de freguesia da Sanguinheira, junto à igreja paroquial.
Segue o anúncio do evento.
Ligação para o Evento no Facebook.
sábado, 2 de agosto de 2014
Flora da Gesteira: A música do pinhal
Este vídeo foi gravado no dia 27-07-2014 entre o canto da Gesteira e o Sanguinhal. Ouvem-se perfeitamente as desafinadas gralhas, um som muito característico durante os quentes e secos dias de Verão.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Baú da Gesteira: Debaixo do mar?
Portugal teve a sua dose de exploradores e cartógrafos, sobretudo no final do século XIII e no século XIV. Para apenas mencionar brevemente os cartógrafos, que foram dos melhores do seu tempo, apesar de muitos terem "emigrado" de Portugal para oferecerem os seus serviços aos reis de Espanha, Inglaterra, França e Itália, ditam-se os seguintes nomes (sem qualquer ordem cronológica ou de importância):
A costa Portuguesa, por exemplo era diferente, como também já fiz referência AQUI :).
A zona gandaresa já esteve, noutros tempos, muito provavalemente, totalmente submersa. Nos mapas de Pomponius Mela (falecido cerca de 45 antes de Cristo) a Península Ibérica e principalmente a zona da costa Portuguesa aparecem muito para o interior, indiciando que há 2000 anos atrás ele teria informação de que o mar entrava pela terra dentro (daquilo que hoje conhecemos, muito provavelmente até à zona de Cantanhede).
Há bastantes reproduções, mais ou menos fiéis, deste cartógrafo/geógrafo Romano, nomeadamente a seguinte que representa a Europa em ponto maior, o onde se pode ver o avanço do Atlântico na região da costa Portuguesa.
Mas não precisamos de recuar 2000 anos para saber de diferenças na costa. É muito provável que alterações climáticas ocorridas há pouco mais de 500 anos tenham não só contribuido para alterações dramáticas a nível de demografia (como por exemplo com a peste negra) mas também da geografia.
Na figura que segue, reconstituição da antiga costa Espinho - Cabo Mondego, de Alberto Souto – Origens da Ria de Aveiro (Subsídio para o estudo do problema), Aveiro, Livraria João Vieira da Cunha Editora, Tipografia Minerva, 1923, identifiquei alguns locais da Gândara actual, nomeadamente as praias de Mira e da Tocha, que estavam na altura submersas, a Tocha e Mira que se econtravam na costa, e Gesteira e Cadima, a poucos Quilómetros da praia. Esta situação geográfica pode ter acontecido há apenas 1000 anos.
De facto, também no século XIV, Pietro Vesconte, um cartógrafo Genovês, tinha desenhado a costa Gandaresa com o Cabo Mondego perfeitamente identificado e muito saliente para dentro do mar, ou seja, a costa a norte estaria "invadida" pelo Atlântico.
Como diria a o Fernando Pessa: "E esa hein?"
- Diogo Ribeiro
- Estevão Gomes
- Pedro Reinel
- seu filho Jorge Reinel
- Lopo Homem
- seu filho Diogo Homem
- Fernão Vaz Dourado
- Sebastião Lopes
- Fernando Álvares Seco
- Luís Teixeira
- Bartolomeu Velho
A costa Portuguesa, por exemplo era diferente, como também já fiz referência AQUI :).
A zona gandaresa já esteve, noutros tempos, muito provavalemente, totalmente submersa. Nos mapas de Pomponius Mela (falecido cerca de 45 antes de Cristo) a Península Ibérica e principalmente a zona da costa Portuguesa aparecem muito para o interior, indiciando que há 2000 anos atrás ele teria informação de que o mar entrava pela terra dentro (daquilo que hoje conhecemos, muito provavelmente até à zona de Cantanhede).
Há bastantes reproduções, mais ou menos fiéis, deste cartógrafo/geógrafo Romano, nomeadamente a seguinte que representa a Europa em ponto maior, o onde se pode ver o avanço do Atlântico na região da costa Portuguesa.
Mas não precisamos de recuar 2000 anos para saber de diferenças na costa. É muito provável que alterações climáticas ocorridas há pouco mais de 500 anos tenham não só contribuido para alterações dramáticas a nível de demografia (como por exemplo com a peste negra) mas também da geografia.
Na figura que segue, reconstituição da antiga costa Espinho - Cabo Mondego, de Alberto Souto – Origens da Ria de Aveiro (Subsídio para o estudo do problema), Aveiro, Livraria João Vieira da Cunha Editora, Tipografia Minerva, 1923, identifiquei alguns locais da Gândara actual, nomeadamente as praias de Mira e da Tocha, que estavam na altura submersas, a Tocha e Mira que se econtravam na costa, e Gesteira e Cadima, a poucos Quilómetros da praia. Esta situação geográfica pode ter acontecido há apenas 1000 anos.
De facto, também no século XIV, Pietro Vesconte, um cartógrafo Genovês, tinha desenhado a costa Gandaresa com o Cabo Mondego perfeitamente identificado e muito saliente para dentro do mar, ou seja, a costa a norte estaria "invadida" pelo Atlântico.
Como diria a o Fernando Pessa: "E esa hein?"
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quarta-feira, 1 de maio de 2013
sábado, 2 de março de 2013
Baú da Gesteira: Gândara 1954
Vídeo de 1954, representando cenas dos lugares de Cadima, Taboeira, Pontes, Aljuriça e Olho, realizado pelo Frei Manuel da Luz.
Como as coisas mudam. Assim era a Gândara há 60 anos atrás.
Para além do Padre Rumor e do ti-Toino Taboeira conhecem mais alguém?
Como as coisas mudam. Assim era a Gândara há 60 anos atrás.
Para além do Padre Rumor e do ti-Toino Taboeira conhecem mais alguém?
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domingo, 17 de fevereiro de 2013
Baú da Gesteira: 6 meses depois do terramoto de 1755
Nos dias que se seguiram ao terramoto de 1755 interrogatórios ordenados pelo rei (D. José I) foram enviados para todas as freguesia do reino. Este interrogatório precedeu em cerca de 2 anos outro bem mais detalhado, preparado pelo Marquês de Pombal, e já AQUI [1] transcrito.
Estes documentos, disponibilizados na Torre do Tombo [2], são extremamente valiosos pois relatam os efeitos do terramoto poucos meses depois do acontecido. Da região de Coimbra inclui as freguesias Anceriz, Arganil, Benfeita, Celavisa, Cerdeira, Coja, Pomares, Pombeiro da Beira, São Martinho da Cortiça, Sarzedo, Secarias, Vila Cova de Alva, Anção, Bolho, Cadima, Cantanhede, Cordinhã, Murtede, Ourentã, Outil, Pocariça, Sepins, Ameal, Antanhol, Antuzede, Arzila, Assafarge, Botão, Castelo Viegas, Ceira, Cernache, Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Lamarosa, São João do Campo, São Martinho de Árvore, São Silvestre, Taveiro, Torre de Vilela, Trouxemil, Vil de Matos, Anobra, Belide, Bem da Fé, Condeixa-a-Nova, Condeixa-a-Velha, Ega, Sebal, Vila Seca, Águas Belas, Alhadas, Brenda, Buarcos, Ferreira-a-Nova, Figueira da Foz, Lavos, Maiorca, Paião, Quiaios, Tavarede, Alvares, Cadafaz, Colmeal, Góis, Vila Nova de Ceira, Foz de Arouce, Serpins, Mira, Lamas, Miranda do Corvo, Rio Vide, Semide, Abrunheira, Gatões, Liceia, Meãs do Campo, Montemor-o-Velho, Santo Varão, Verride, Vila Nova da Barca, Aldeia das Dez, Alvoco das Várzeas, Avó, Bobadela, Lagares, Lagos da Beira, Lajeosa, Lourosa, Meruge, Nogueira do Cravo, Penalva de Alva, Santa Ovaia, São Gião, Travanca de Lagos, Vila Pouca da Beira, Fajão, Carvalho, Figueira de Lorvão, Friúmes, Lorvão, Paradela, Penacova, São Paio de Farinha Podre, Espinhal, Podentes, Rabaçal, Santa Eufémia, São Miguel, Alfarelos, Degracias, Gesteira, Pombalinho, Samuel, Soure, Tapéus, Vila Nova de Anços, Vinha da Rainha, Ázere, Covas, Covelo, Espariz, Midões, Mouronho, Pinheiro de Coja, São João da Boavista e Sinde.
No caso do couto de Cadima, o pároco Manuel Rodrigues Trovão foi bastante sucinto, tendo preenchido apenas uma página que a seguir se reproduz.
A informação contida neste documento não deixa de ser muito interessante, nomeadamente:
"Nesta fregª naõ houve ruinas de casas; só sim a sumptuoza Igrª padece sentimº Sozas suas paredes levantada a Cruz do frontispicio da postura, em qe se achava antecedentem.te e cahio huã das bolas de pedra qe se achava na piramida da torre, e ameaça grande ruina a bobeda do Coro da mesma Igrª q pª se edificar depende de despeza, qe ha de exceder as forças do povo por este ser m.to pobre."
Também é muito curiosa a nota ao facto do mar ter transbordado mais de "dois tiros de espingarda" (esta medida de distância não é muito comum e pelos vistos também não é muito conhecida, mas o Professor José Carlos Vilhena Mesquita [3], por mim contactado a este respeito, estima, por alto, que se possa tratar de cerca de 1 Km).
Finalmente, obtemos mais uma informação importante que é o número de almas da freguesia em Maio de 1756: 2500.
Fontes:
Estes documentos, disponibilizados na Torre do Tombo [2], são extremamente valiosos pois relatam os efeitos do terramoto poucos meses depois do acontecido. Da região de Coimbra inclui as freguesias Anceriz, Arganil, Benfeita, Celavisa, Cerdeira, Coja, Pomares, Pombeiro da Beira, São Martinho da Cortiça, Sarzedo, Secarias, Vila Cova de Alva, Anção, Bolho, Cadima, Cantanhede, Cordinhã, Murtede, Ourentã, Outil, Pocariça, Sepins, Ameal, Antanhol, Antuzede, Arzila, Assafarge, Botão, Castelo Viegas, Ceira, Cernache, Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Lamarosa, São João do Campo, São Martinho de Árvore, São Silvestre, Taveiro, Torre de Vilela, Trouxemil, Vil de Matos, Anobra, Belide, Bem da Fé, Condeixa-a-Nova, Condeixa-a-Velha, Ega, Sebal, Vila Seca, Águas Belas, Alhadas, Brenda, Buarcos, Ferreira-a-Nova, Figueira da Foz, Lavos, Maiorca, Paião, Quiaios, Tavarede, Alvares, Cadafaz, Colmeal, Góis, Vila Nova de Ceira, Foz de Arouce, Serpins, Mira, Lamas, Miranda do Corvo, Rio Vide, Semide, Abrunheira, Gatões, Liceia, Meãs do Campo, Montemor-o-Velho, Santo Varão, Verride, Vila Nova da Barca, Aldeia das Dez, Alvoco das Várzeas, Avó, Bobadela, Lagares, Lagos da Beira, Lajeosa, Lourosa, Meruge, Nogueira do Cravo, Penalva de Alva, Santa Ovaia, São Gião, Travanca de Lagos, Vila Pouca da Beira, Fajão, Carvalho, Figueira de Lorvão, Friúmes, Lorvão, Paradela, Penacova, São Paio de Farinha Podre, Espinhal, Podentes, Rabaçal, Santa Eufémia, São Miguel, Alfarelos, Degracias, Gesteira, Pombalinho, Samuel, Soure, Tapéus, Vila Nova de Anços, Vinha da Rainha, Ázere, Covas, Covelo, Espariz, Midões, Mouronho, Pinheiro de Coja, São João da Boavista e Sinde.
No caso do couto de Cadima, o pároco Manuel Rodrigues Trovão foi bastante sucinto, tendo preenchido apenas uma página que a seguir se reproduz.
| Cadima: Resposta ao Questionário do Rei, 10 de Maio e 1756 [2] |
- o terramoto sentiu-se durante cerca de um quarto de hora, no dia 1 de Novembro, repetidamente
- sentiu-se mais ao Sul do que a Norte
- não causou ruinas em casas da freguesia, mas a (sumptuosa) Igreja teve alguns estragos, a Igreja precisa de reparações que o povo não pode prover por ser muito pobre
- não morreram pessoas nesta freguesia por causa do terramoto
- o mar transbordou em "mais de 2 tiros de espingarda" e logo voltou às suas águas
- nesta aldeia (Cadima) abriram-se 2 bocas na areia, do tamanho do fundo de uma dorna, mas que logo se encheram da mesma areia, não surtiram fontes destas bocas
- não se fizeram ainda reparações na Igreja, apenas suplicas ao Senhor para terminar com os terramotos (incluindo penitências e jejuns)
- depois do primeiro terramoto ocorreram mais duas réplicas, 41 e 60 dias depois, da mesma intensidade mas menor duração
- não há memória de outros terramotos na freguesia, composta por mais ou menos 2500 pessoas
- não há falta de mantimentos nem incêndios
"Nesta fregª naõ houve ruinas de casas; só sim a sumptuoza Igrª padece sentimº Sozas suas paredes levantada a Cruz do frontispicio da postura, em qe se achava antecedentem.te e cahio huã das bolas de pedra qe se achava na piramida da torre, e ameaça grande ruina a bobeda do Coro da mesma Igrª q pª se edificar depende de despeza, qe ha de exceder as forças do povo por este ser m.to pobre."
Também é muito curiosa a nota ao facto do mar ter transbordado mais de "dois tiros de espingarda" (esta medida de distância não é muito comum e pelos vistos também não é muito conhecida, mas o Professor José Carlos Vilhena Mesquita [3], por mim contactado a este respeito, estima, por alto, que se possa tratar de cerca de 1 Km).
Finalmente, obtemos mais uma informação importante que é o número de almas da freguesia em Maio de 1756: 2500.
Fontes:
[2] Arquivo Nacional Torre do Tombo - Informações dos párocos de diversas regiões do país relativas às consequências do terramoto de 1755
[3] Blog PROMOTÓRIO da MEMÓRIA, do prof. José Carlos Vilhena Mesquita
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sábado, 16 de fevereiro de 2013
Hoje e Amanhã: Manuel Marques, da Gesteira
Mais um personagem bem conhecido da nossa terra, o ti-Manel Marques, residente nos Cantos da Gesteira, que eu conheço desde que nasci, e que sempre foi ali vizinho próximo da minha família.
Este artigo veio publicado no jornal "Boa Nova", de 27 de Dezembro de 2012.
Clique na imagem para a ver no tamanho normal e ler a entrevista.
Este artigo veio publicado no jornal "Boa Nova", de 27 de Dezembro de 2012.
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Hoje e Amanhã: Entrevista ao jornal Boa Nova (14/02/2013)
Aqui vos deixo uma imagem da entrevista dada ao jornal "Boa Nova", de Cantanhede, que saiu no dia 14 de Fevereiro de 2013.
Basta clicar na imagem para a ver em formato maior e poder ler a entrevista.
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sábado, 3 de novembro de 2012
Baú da Gesteira: Nomes Antigos
Esta é uma nota sobre nomes que já existiam há cerca de mil anos cá pela nossa região (mais concretamente Coimbra - colimbriesi).
A imagem foi retirada de um testamento que está no Livro Preto da Sé de Coimbra [1]. O Livro Preto é um importante códice medieval que inclui uma série de diplomas que narram um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar na região de Coimbra e no centro de Portugal, para além dos territórios dependentes de Coimbra. Esse livro contém acontecimentos ocorridos entre os séculos VIII e XIII.
Apesar de estar escrito em latim, e com um tipo de letra muito característico mas muito bem cuidado é possível aos leigos (como eu) entender algumas partes de alguns documentos, que na sua maioria referem a eventos antes da fundação de Portugal.
Este caso específico indica nomes da época onde reconhecemos:
- Gonçalo (Gudisaluus)
- Maranº
- Sisnando (Sisnandus)
- Domingos (Dnicus)
- Daniel (Danil)
- Pelágio (Pelagiº)
- Rodrigo (Rodricº)
- Nuno (Nunº)
- Pedro (Petrº / Petro)
- Cristóvão (Xpoforº)
- Ibn (Ibns)
Também era indicado nos testamentos a posição social/profissão das testemunhas, neste caso vemos algumas como:
- Pontífice (pontifex)
- Soldado (armari)
- Capelão (capellanº)
- Presbítero (pb'r)
- Prior (p'r)
- Diácono (diaconus/d'c)
- Subdiácono (subdiaconus)
Referências:
[1] O Livro Preto da Sé de Coimbra - Infopédia
[2] O Livro Preto da Sé de Coimbra - Digitalização da Torre do Tombo
A imagem foi retirada de um testamento que está no Livro Preto da Sé de Coimbra [1]. O Livro Preto é um importante códice medieval que inclui uma série de diplomas que narram um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar na região de Coimbra e no centro de Portugal, para além dos territórios dependentes de Coimbra. Esse livro contém acontecimentos ocorridos entre os séculos VIII e XIII.
Apesar de estar escrito em latim, e com um tipo de letra muito característico mas muito bem cuidado é possível aos leigos (como eu) entender algumas partes de alguns documentos, que na sua maioria referem a eventos antes da fundação de Portugal.
Este caso específico indica nomes da época onde reconhecemos:
- Gonçalo (Gudisaluus)
- Maranº
- Sisnando (Sisnandus)
- Domingos (Dnicus)
- Daniel (Danil)
- Pelágio (Pelagiº)
- Rodrigo (Rodricº)
- Nuno (Nunº)
- Pedro (Petrº / Petro)
- Cristóvão (Xpoforº)
- Ibn (Ibns)
Também era indicado nos testamentos a posição social/profissão das testemunhas, neste caso vemos algumas como:
- Pontífice (pontifex)
- Soldado (armari)
- Capelão (capellanº)
- Presbítero (pb'r)
- Prior (p'r)
- Diácono (diaconus/d'c)
- Subdiácono (subdiaconus)
Referências:
[1] O Livro Preto da Sé de Coimbra - Infopédia
[2] O Livro Preto da Sé de Coimbra - Digitalização da Torre do Tombo
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quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Baú da Gesteira: Redução de impostos para promover o desenvolvimento
A redução de impostos sempre foi a forma mais eficaz de promover o desenvolvimento, sobretudo económico, mas também social (por estranho que pareça).
Aconteceu em 24 de fevereiro de 1293:
Fonte: Torre do Tombo, Leitura Nova, liv. 27 (Livro 11 da Estremadura), f. 300, coluna 2.
Aconteceu em 24 de fevereiro de 1293:
"Mandado
ao prior e convento de Santa Cruz de Coimbra, pelo qual os moradores de
Cadima e de Arazede e doutros herdamentos do dito convento ficaram
livres e quites dos foros e fiscos reais"
Fonte: Torre do Tombo, Leitura Nova, liv. 27 (Livro 11 da Estremadura), f. 300, coluna 2.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Baú da Gesteira: A Gândara no Numeramento de 1527-1532
O Numeramento de 1527-1532, do tempo e D. João III, é a primeira recolha sistemática e completa de dados sobre as comarcas, cidades, vilas e aldeias de Portugal e sobre a sua população.
Naquela altura, a actual região Gandaresa encontrava-se incluída na região da Estremadura.
À data do numeramento da região (1527) a região gandaresa era ainda pouco povoada, sendo quase ignorada (não referida) no dito numeramento. As referências que existem à região são referentes à vila de Mira e seu termo, à vila de Cantanhede e termo, Buarcos e Montemor-o-Velho (onde se icluía o couto de Cadima).
Esta vila de Mira he de Simão Tavares e tem 43 vizinhos no corpo da vila.
Titolo do seu termo: A Povoa da Irmida te 2 vizinhos. - Na Curugeira, 2. - Em Petomar, 1.
Tem de termo pera a parte de Cadima e Mõte mor o Velho hua legoa.
Parte cõ Cãtanhede e Vagos e Mõtemor. - Jorje Fernandez o esprevy. - E isto fiqa asynado por o tabeliam da dita vila, no livro que e meu poder fiqa.
Soma, 48 vizinhos.
Fui a vila de Camtanhede, que he de dom Jorge de Meneses, e achei aver no corpo da vila 103 vizinhos de que sam 6 escudeiros e 7 clerigos.
Titolo do seu termo: - Aldea de Lemede tem 50 vizinhos. - Aldea de Povoa da Lonba, 28. - os moinhos do Ribeiro, 9. - Aldea da Porcariça, 38. - Aldea dOurentam, 28. - A Povoa do Bispo e outras Povoas ahi junto, 16. - Aldea de Mõtarqado e Covoes e Malhada, 27.
Esta vila tem de termo pera a parte de Vagos duas legoas, e pera Ançã te legoa e mea de termo, e pera a parte da vila dAveiro tem de termo hua legoa e mea.
Parte com Aveyro e cõ as vilas de Vagos e Amçã. - Jorjer Fernandez o esprevy e o juiz de Cantanhede o asinou no livro que e meu poder fiqa.
Soma ao todo, e Cantanhede e termo, 299 vizinhos.
Em Buarqos ha duas vilas, a saber; Buarqos, que he vila do cõde de Tetugel; e os Redondos, que he de Samta Cruz de Coinbra, e nõ se mete entre elas somente hua rua que as demarqa, que vai pelo meio deles e anbas jumtas. Os Redomdos [que] esta da parte de cima, tem 46 vizinhos; Buarqos que esta da parte do maar, tem 98 vizinhos.
Parte cõ ho mar e cõ termo de Mõte Mor de todas as partes. - esta eformação tomei cõ Lopo Diaz, morador e Buarqos. - Jorje Fernandez o esprevy.
Soma e anbas, 144 vizinhos.
No dito dia atras (17 de outubro de 1527) fui eu Jorge Fernandez, esprivão, a vila de Mõte Mor o Velho, que he do Mestre de Santiago, honde cõ Vasco dOliveira, cavaleiro e almoxarife, e cõ hu tabeliam tomeir eformaçãom dos moradores e termo da dita vila, e achei o segimte: - A vila de Mõte Moor o Velho tem 496 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 21 cavaleiros e 28 escudeiros e 64 viuvas, e o mais he povo; e mais ha na dita vila 7 vizinhos merqadores.
Titolo do seu termo: - As Alhadas de Baixo que tem 117 vizinhos; a jurdiçãom civel e o crime he de Monte Mor (de Santa Cruz) - O logar de Tavaredo tem 112 vizinhos e ter a jurdiçãom civel somente, ho crime he de Mõte Mor (Cabido de Coinbra) - O logar de Qyayos que he da jurdiçãom crime da dita vila, 63 vizinhos (Santa Cruz) - O logar do Louriçal que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor, 220 (Santa Cruz) - O logar de Ulmar que he da jurdiçãom crime desta vila, 26 (Santa Cruz) - O logar dAlfarelos cõ Gravielos, 81. - O logar de Azãbujal que he da jurdiçãom crime desta vila, 25 (Santa Cruz) - Aldea de Vila Franqa, 27. - O couto de Barra, que he do mosteiro de Ceiça, 81. - O Regego de Abitoreiras, 33 - Fermoselhe, 43 (he de dom Pedro de Meneses) - O couto de Lavãos, que ha da jurdição crime desta vila e o civel he do Bispo de Coinbra, tem 64 vizinhos (Bispo de Coinbra) - o couto de Cadima, que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor e o civel he de Santa Cruz de Coimbra (Santa Cruz) - O lugar de Sam Verão, que he do crime de Mõte Mor e o civel do Bispo de Coinbra, 24 vizinhos. (Bispo de Coibra) - Aldea de Vila Nova da Barqa, 59 - O Carvalhal, 64. - A Ribeira dos Moinhos, 69. - Aldea da Gramja, 19. - O logar de Figeiro do Canpo cõ Belida, 75. - O logar de Brenha (Brenha he jirdiçã das Alhadas) e Maiorca (he jurdiçã do civel sibre sy) tem 166 vizinhos; Maiorca he o principal (Santa Cruz) - Arazede tem 27 vizinhos (he do Bispo e de Santa Cruz, e cada hu tem seu juiz e sua parte, na jurdiçã civel) - Aldea de Brunhoos tem 24 vizinhos. - O regego das Meaãs, 52. - O logar de Verride he do crime de Mõte Mor e eles tem o civel, tem 174 vizinhos (Santa Cruz o civel e o crime dos daninhos) - O regego de Coles e Figeira e Azoyas, 57 vizinhos (Este tem Simã de Faria e nã he do Bispo) - Serra Vetoso, que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor e do civel do Bispo de Coibra, 67 vizinhos (Bispo o civel) - Aldea de Vila Verde, 4 (he do Bispo, te o civel) - A quintã de Treixede que he de Santa Cruz de Coinbra, 1 vizinho, frade (Santa Cruz o civel).
Esta vila de Mõte Mor o Velho tem pera a parte de Coinbra hua legoa e mea de termo, e pera a parte da vila de Cãtanhede tem tre legoas de termo, e pera a banda do maar da augoa de Mira ate ao mar, que sam seis legoas grandes da banda do norte, e pera a parte das Abitueiras da parte do sul tem outras seis legoas de termo, e do vedaval tem tres legoas de termo ate Qyayos.
Parte cõ Coinbra, e cõ a vila de Tetugel e cõ Buarqos e cõ Vila Nova dAnços, e cõ termo da vila de Leiria. - Segundo fiqa por os sobreditos asinado. - Jorje Fernandez o esprevy.
Soma ao todo, 2339 vizinhos.
E neste termo atras desta vila de Monte Mor o Velho diserã os sobreditos almoxarife e tabeliam, que averia outros tantos clerigos como na vila, e mais.
Ançã e termo: 303 vizinhos
Vilarinho e termo: 34 vizinhos
Vagos e termo: 118 vizinhos
Tentúgal e termo: 318 vizinhos
Póvoa de Santa Cristina: 48 vizinhos
Referência: Archivo Historico Portuguez, vol. V, 1907, Anselmo Braamcamp de Freire, pp. 278-282.
O número de vizinhos, no século XVI, pode não referir exactamente habitantes, no entanto para termos de comparação podemos assumir 1 vizinho = 1 habitante.
No "Archivo Historico Portuguez" de Braamcamp, não há discriminação do número de vizinhos do couto de Cadima. Deduz-se que esse valor seja 68 vizinhos. O couto de Cadima incluía então as actuais freguesias de Cadima, Sanguinheira e Tocha, sendo que 68 vizinhos é um numero muito pequeno.
Couto de Cadima em 1527: 68 vizinhos (135 km2, 0,5 viz/km2)
Equivalente do Couto de Cadima hoje: 9400 habitantes (135 km2, 69,6 hab/km2)
Naquela altura, a actual região Gandaresa encontrava-se incluída na região da Estremadura.
À data do numeramento da região (1527) a região gandaresa era ainda pouco povoada, sendo quase ignorada (não referida) no dito numeramento. As referências que existem à região são referentes à vila de Mira e seu termo, à vila de Cantanhede e termo, Buarcos e Montemor-o-Velho (onde se icluía o couto de Cadima).
1. Mira
A vila de MyraEsta vila de Mira he de Simão Tavares e tem 43 vizinhos no corpo da vila.
Titolo do seu termo: A Povoa da Irmida te 2 vizinhos. - Na Curugeira, 2. - Em Petomar, 1.
Tem de termo pera a parte de Cadima e Mõte mor o Velho hua legoa.
Parte cõ Cãtanhede e Vagos e Mõtemor. - Jorje Fernandez o esprevy. - E isto fiqa asynado por o tabeliam da dita vila, no livro que e meu poder fiqa.
Soma, 48 vizinhos.
2. Cantanhede
A vila de CamtanhedeFui a vila de Camtanhede, que he de dom Jorge de Meneses, e achei aver no corpo da vila 103 vizinhos de que sam 6 escudeiros e 7 clerigos.
Titolo do seu termo: - Aldea de Lemede tem 50 vizinhos. - Aldea de Povoa da Lonba, 28. - os moinhos do Ribeiro, 9. - Aldea da Porcariça, 38. - Aldea dOurentam, 28. - A Povoa do Bispo e outras Povoas ahi junto, 16. - Aldea de Mõtarqado e Covoes e Malhada, 27.
Esta vila tem de termo pera a parte de Vagos duas legoas, e pera Ançã te legoa e mea de termo, e pera a parte da vila dAveiro tem de termo hua legoa e mea.
Parte com Aveyro e cõ as vilas de Vagos e Amçã. - Jorjer Fernandez o esprevy e o juiz de Cantanhede o asinou no livro que e meu poder fiqa.
Soma ao todo, e Cantanhede e termo, 299 vizinhos.
3. Buarcos
As vilas de Buarqos e dos RedomdosEm Buarqos ha duas vilas, a saber; Buarqos, que he vila do cõde de Tetugel; e os Redondos, que he de Samta Cruz de Coinbra, e nõ se mete entre elas somente hua rua que as demarqa, que vai pelo meio deles e anbas jumtas. Os Redomdos [que] esta da parte de cima, tem 46 vizinhos; Buarqos que esta da parte do maar, tem 98 vizinhos.
Parte cõ ho mar e cõ termo de Mõte Mor de todas as partes. - esta eformação tomei cõ Lopo Diaz, morador e Buarqos. - Jorje Fernandez o esprevy.
Soma e anbas, 144 vizinhos.
4. Montemor-o-Velho
A vila de Mõte Mor o VelhoNo dito dia atras (17 de outubro de 1527) fui eu Jorge Fernandez, esprivão, a vila de Mõte Mor o Velho, que he do Mestre de Santiago, honde cõ Vasco dOliveira, cavaleiro e almoxarife, e cõ hu tabeliam tomeir eformaçãom dos moradores e termo da dita vila, e achei o segimte: - A vila de Mõte Moor o Velho tem 496 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 21 cavaleiros e 28 escudeiros e 64 viuvas, e o mais he povo; e mais ha na dita vila 7 vizinhos merqadores.
Titolo do seu termo: - As Alhadas de Baixo que tem 117 vizinhos; a jurdiçãom civel e o crime he de Monte Mor (de Santa Cruz) - O logar de Tavaredo tem 112 vizinhos e ter a jurdiçãom civel somente, ho crime he de Mõte Mor (Cabido de Coinbra) - O logar de Qyayos que he da jurdiçãom crime da dita vila, 63 vizinhos (Santa Cruz) - O logar do Louriçal que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor, 220 (Santa Cruz) - O logar de Ulmar que he da jurdiçãom crime desta vila, 26 (Santa Cruz) - O logar dAlfarelos cõ Gravielos, 81. - O logar de Azãbujal que he da jurdiçãom crime desta vila, 25 (Santa Cruz) - Aldea de Vila Franqa, 27. - O couto de Barra, que he do mosteiro de Ceiça, 81. - O Regego de Abitoreiras, 33 - Fermoselhe, 43 (he de dom Pedro de Meneses) - O couto de Lavãos, que ha da jurdição crime desta vila e o civel he do Bispo de Coinbra, tem 64 vizinhos (Bispo de Coinbra) - o couto de Cadima, que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor e o civel he de Santa Cruz de Coimbra (Santa Cruz) - O lugar de Sam Verão, que he do crime de Mõte Mor e o civel do Bispo de Coinbra, 24 vizinhos. (Bispo de Coibra) - Aldea de Vila Nova da Barqa, 59 - O Carvalhal, 64. - A Ribeira dos Moinhos, 69. - Aldea da Gramja, 19. - O logar de Figeiro do Canpo cõ Belida, 75. - O logar de Brenha (Brenha he jirdiçã das Alhadas) e Maiorca (he jurdiçã do civel sibre sy) tem 166 vizinhos; Maiorca he o principal (Santa Cruz) - Arazede tem 27 vizinhos (he do Bispo e de Santa Cruz, e cada hu tem seu juiz e sua parte, na jurdiçã civel) - Aldea de Brunhoos tem 24 vizinhos. - O regego das Meaãs, 52. - O logar de Verride he do crime de Mõte Mor e eles tem o civel, tem 174 vizinhos (Santa Cruz o civel e o crime dos daninhos) - O regego de Coles e Figeira e Azoyas, 57 vizinhos (Este tem Simã de Faria e nã he do Bispo) - Serra Vetoso, que he da jurdiçãom crime de Mõte Mor e do civel do Bispo de Coibra, 67 vizinhos (Bispo o civel) - Aldea de Vila Verde, 4 (he do Bispo, te o civel) - A quintã de Treixede que he de Santa Cruz de Coinbra, 1 vizinho, frade (Santa Cruz o civel).
Esta vila de Mõte Mor o Velho tem pera a parte de Coinbra hua legoa e mea de termo, e pera a parte da vila de Cãtanhede tem tre legoas de termo, e pera a banda do maar da augoa de Mira ate ao mar, que sam seis legoas grandes da banda do norte, e pera a parte das Abitueiras da parte do sul tem outras seis legoas de termo, e do vedaval tem tres legoas de termo ate Qyayos.
Parte cõ Coinbra, e cõ a vila de Tetugel e cõ Buarqos e cõ Vila Nova dAnços, e cõ termo da vila de Leiria. - Segundo fiqa por os sobreditos asinado. - Jorje Fernandez o esprevy.
Soma ao todo, 2339 vizinhos.
E neste termo atras desta vila de Monte Mor o Velho diserã os sobreditos almoxarife e tabeliam, que averia outros tantos clerigos como na vila, e mais.
5.Outras referências próximas
Ançã e termo: 303 vizinhos
Vilarinho e termo: 34 vizinhos
Vagos e termo: 118 vizinhos
Tentúgal e termo: 318 vizinhos
Póvoa de Santa Cristina: 48 vizinhos
6. Notas Finais
Referência: Archivo Historico Portuguez, vol. V, 1907, Anselmo Braamcamp de Freire, pp. 278-282.
O número de vizinhos, no século XVI, pode não referir exactamente habitantes, no entanto para termos de comparação podemos assumir 1 vizinho = 1 habitante.
No "Archivo Historico Portuguez" de Braamcamp, não há discriminação do número de vizinhos do couto de Cadima. Deduz-se que esse valor seja 68 vizinhos. O couto de Cadima incluía então as actuais freguesias de Cadima, Sanguinheira e Tocha, sendo que 68 vizinhos é um numero muito pequeno.
Couto de Cadima em 1527: 68 vizinhos (135 km2, 0,5 viz/km2)
Equivalente do Couto de Cadima hoje: 9400 habitantes (135 km2, 69,6 hab/km2)
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
Baú da Gesteira: Propriedade de Cadima em 1162
Um testamento de Março de 1162, de um conde Gonçalo que, na véspera de uma peregrinação à Terra Santa, deixa a Santa Cruz de Coimbra uma sua propriedade em Cadima.
Referência: ANTT - Livro de D. João Teotónio, folhas 62verso-63.
Referência: ANTT - Livro de D. João Teotónio, folhas 62verso-63.
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sexta-feira, 18 de maio de 2012
Baú da Gesteira: D. Afonso I, povoador da Gândara
![]() |
| D. Afonso I (Afonso Henriques) |
O texto que segue representa a minha transcrição de uma pequena parte do livro "Memorias de litteratura portugueza" da Academia das Ciências de Lisboa, Tomo II, Anno 1792.
Na parte final do excerto o autor indica que foi na altura de Dom Afonso Henriques (n. 1109, f. 1185) entre 1139 e 1185, após a explusão dos mouros da Beira, Estremadura e Alentejo, que o rei doou os terrenos então reconquistados a catedrais e mosteiros para que estes fomentassem a sua povoação e exploração agrícola. Segundo o autor, foi nesta altura que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra repartiu (e partilhou por convenções) terras nas regiões de Cadima e Tocha, podendo ter dado origem à criação de povoações naquela altura.
MEMORIA
Para a Historia da Agricultura em Portugal.
Queres principiar a Historia da Agricultura em Portugal desde antes da fundação, e independencia desta Monarquia, he querer tirar a luz do centro da obscuridade. Nossos maiores pouco sollicitos de nos deixarem memorias, e o tempo consumidor de tudo, nos embaraça de subir taõ longe. Na falta de testemunhos precisos, e particulares, bem podemos lembrar-nos de huma idéia vaga, e geral, de que os Gregos, os Romanos, os Septemtrionaes, e os Arabes conheciaõ, e procuravaõ o nosso paiz, como fértil de todos os géneros, que remedeiaõ as primeiras, e segundas necessidades da vida, e que concorrem á delicadeza, e á Policia, os quaes eu reduzo á tabela seguinte:
1º Grãos = Cerealia.
2º Legumes.
3º Fructas, e Hortaliças.
4º Texturas = Lans, Linhos, Sedas.
5º Liquores = Azeite, Vinho, Mel.
6º Gado grosso = Armenta.
7º Madeiras.
Estes saõ os géneros, em que Portugal foi sempre fecundo. A diversidade dos tempos, fez que nem sempre florescessem igualmente. Isto he o que eu hei de hir mostrando. Como escrevo a sábios naõ meterei pelos olhos o que digo: contento-me de o deixar ver. Julguei que o modo mais accommodado ás minhas primeiras ideias, era discorrer pela vida de cada hum dos nossos Principes, e mostrar ahi o aumento, ou decadência da Agricultura, e as suas causas. Serei breve, fugindo de ser escuro.
I
Do tempo do Conde D. Henrique até a ElRei D. Pedro o I.
O Terreno que chamamos Portugal, no tempo do Conde D. Henrique era, grande parte, senhoreado de Mouros, inimigos irreconciliáveis dos Nacionaes, com quem viviaõ quasi sempre em crua guerra. O caracter da guerra d’aqueles tempos era principalmente de corridas, de salto, e de pilhagem, a onde de parte a parte se roubavaõ os fructos, e os rebanhos. Os Lavradores, destas continuas inquietações sempre assustados, e penas cultivavaõ as terras mais vizinhas ás casas fórtes, e povoações muradas, donde facilmente podessem ser auxiliados das irrupções dos inimigos. Com a maõ, hora nos instrumentos da cultura, outra hora nos da guerra pela maior parte colhiaõ, e pelejavaõ.
Nas Provincias do Minho, Tras-os-Montes, e huma parte da Beira se vivia com mais repoiso. Ahi mais a salvo os Lavradores, semeavaõ, e colhiaõ. As colheiras eraõ principalmente de trigo, centeio, cevada, e legumes. As fructas, e hortaliças eraõ abundantes á proporção do povo. O azeite era rarissimo no Minho; havia suficiente na Beira, e Tras-os-Montes: (1) do mesmo modo era o vinho. Os mais géneros floreciaõ medianamente.
Ainda entaõ se naõ tinhaõ introduzido tantas diferenças de qualidades na Ordem politica. Hum Lavrador era hum homem bom, hum homem honrado, que rodava com todos os bons Patriotas, e ocupava os honrosos cargos públicos do Lugar em que vivia.
O Conde vendo, que havia bastantes terras incultas, que era necessário cultivarem-se para a subsistencia do Estado, e que por outra parte os cuidados da guerra lhe naõ deixavaõ empregar-se de propósito neste empenho, buscou modo, com que, sem faltar aos ministerio das armas, promovesse a Agricultura. Repartio largamente as terras incultas por alguns corpos de maõ morta, como ás Cathedrais de Braga, e outras, e aos Monges Benedictinos; e tambem por muitos Senhores da sua Corte, que as fizessem cultivar. (I) A Cathedral de Braga repartio estas terras, afforando humas, dando outras aos Lavradores com a convençaõ de certas partilhas na colheita dos fructos.
Os Monges em parte fazendo o mesmo que a Cathedral, em parte dando ainda melhor exemplo, tambem promovêraõ a cultura. Viviaõ ainda estes respeitáveis Monges em todo o rigor dos trabalhos Monasticos. Multiplicáraõ, com o favor do Conde, os Mosteiros, aonde se recolhiaõ nas horas de repouso, e Oraçaõ. O mais tempo empregavaõ em cultivar por suas próprias mãos as terras que lhes fôraõ doadas, dando testemunho publico da sua observancia, e do amor ao trabalho honesto, e proveitoso, fundando ao mesmo tempo muitas povoações, e Freguezias para commodo d’aquelles seculares, que por algum modo se aggregavaõ ás suas lavouras, donde veio ser a Provincia do Minho a mais povoada, e por consequência a mais abundante.
Estas Communidades de Monges lavradores se augmentáraõ tanto, que além dos Mosteiros Lorvaniense, e Bubulense serem muito povoados, o Palumbario, segundo escrevem alguns, chegou a ter 900 Monges. (I) A utilidade intrinseca de Agricultura, os exemplos destes virtuosos Monges, o favor do Principe, e dos poderosos, para o augmento da povoaçaõ, e por consequencia da Cultura, tudo animou os homens, e começaraõ a empregar-se com mais gosto nos trabalhos da lavoura.
Neste tempo ainda naõ era cultivada por nós, mais que huma pequena parte da Estremadura. A Beira nem toda era cultivada. O Além-Téjo era ocupado de Mouros, que naõ deixavaõ trabalhar os naturaes, opprimindo-os ou com escravidão, ou com a guerra.
Entrou o governo d’ElRei D. Affonso Henriques, em cujo tempo já nas três Provincias havia muita colheita de grãos, vinhos, e azeite, principalmente nas vizinhanças de Coimbra. Duarte Galvaõ, e Duarte Nunes do Leaõ nos contaõ, que estando este Principe em Guimarães vieraõ os Mouros cercar Coimbra, e destruiraõ = pães, hortas, vinhos, e olivaes, com tudo era tanta a abundancia destes generos na Cidade, que davaõ cinco quarteiros de trigo per hum maravidy de ouro e dous moros de vinho per outro meravidy = saõ formaes palavras por que Duarte Galvaõ se explica. (I)
As armas Portuguezas conduzidas por este Principe foraõ correndo pela Estremadura, entrando por Além-Téjo, e compellindo os Mouros até aos fins da Monarquia. Novas terras conquistadas pediaõ novos povoadores, e colonos. Elle todo ocupado na reparação da Patria, vendo que os trabalhos da guerra lhe naõ deixavaõ pôr todos os esforços no augmento da Cultura, seguio os vestigios de seu Pai, já em cuidar, que se fizessem novas povoações, ja em repartir as terras pelos Corpos de maõ morta; deu muitas ás Cathedraes de Vizeu, e Coimbra, que fizeraõ fundar inumeraveis povoações, (2) outras muitas aos Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. (I) Estas corporações repartíraõ tambem as terras pelos seus colonos com foros, ou por convenções de partilhas na colheita, por terço, quarto, e oitavo; e esta foi a origem dos direitos que este Mosteiro ainda hoje tem nos campos de Cadima, Tocha, Antuzede, Reveles, Ribeira de Frades, Condeixa a Nova, e Vetride povoações, que aquella Communidade ou fundou, ou reedificou para commodo dos seus Lavradores.... (continua)
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