quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Boas Festas e Feliz 2012

Boas Festas e Feliz 2012 a todos os visitantes. Aqui vos deixo com fotos de um presépio Gandarês (da Gesteira, claro), um presépio de Pedra (de Cantanhede), e um presépio mais citadinho (de Coimbra).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Hoje e Amanhã: Ser um astronauta

Hoje, um post um pouco diferente. Quando era criança lembro-me de estar em cima de um tronco de pinheiro, fechar os olhos e imaginar que estava numa nave espacial voando à descoberta de novos mundos.
Hoje estive, aqui em Versailles, nos arredores de Paris, com um ex-astronauta, e foi-nos apresentado o seguinte vídeo, muito inspirador, quer pela música e pela sua mensagem, quer pelas imagens.

Apreciem:
http://www.youtube.com/watch?v=YYh6BD6-Hc8

Qual o mal em ser astronauta (na vida real ou em sonhos)?

sábado, 1 de outubro de 2011

Hoje e Amanhã: O menino que queria ser astronauta

No jornal "Boa Nova" de 29 de setembro de 2011, na seção "MOMENTOS, ESPAÇOS E PESSOAS" (última página) vem o resultado de uma entrevista que dei à jornalista Mirla Ferreira Rodrigues.

Aqui fica a imagem para quem está longe

domingo, 31 de julho de 2011

Hoje e Amanhã: Verão de Criminosos

O Verão chegou e os mesmos problemas de sempre também permanecem.

Ontem, junto à Sanguinheira de Baixo, no caminho que vai da Gesteira (Madalenas) para a Sanguinheira de Baixo, uma alma criminosa ateou 2 fogos. Já o primeiro (das imagens) lavrava num monte de lenha de um pinhal recém cortado e começava a atear-se ao pinhal vizinho, quando se avistou outra coluna de fuma a uns 300 metros dali. A alma criminosa não deveria estar muito longe, mas tanto quanto sei não foi vista, apesar de alguém ter logo corrido na direção do segundo foco de incêndio.
Felizmente, a pronta atuação da população que por ali passava e a chamada dos bombeiros evitou logo males maiores.
Ainda apanhei um escaldão ao tentar evitar que o fogo se espalhasse para o pinhal vizinho, com ramos de acácia e atirando areia para cima da frente de fogo.

Quem comete estes atos criminosos deveria ser privado dos seus direitos de liberdade por largos anos!

sábado, 16 de julho de 2011

Cultura: Bruxas e Lobisomens

Antes dos anos 50 (chegada da electricidade pública à Gesteira), tempo muito diferente do nosso pois vivia-se muito "na escuridão", as distâncias eram bem maiores, a solidão tinha outro significado, passava-se mais tempo à lareira, não havia televisão, havia apenas 2 ou 3 aparelhos de rádio na freguesia de Cadima, e telefones, internet, telemóveis, ou não se sabia bem o que era, ou nem se imaginava o que poderiam vir a ser!

Mas havia histórias deliciosas que passavam de pais para filhos, verdadeiras ou não, simples crenças ou factos? Não me cabe a mim fazer esse julgamento, mas todos nós temos um pouco dessas histórias "românticas" na nossa infância, na nossa cultura, nas nossas crenças, nos nossos receios.

Lembro-me ainda de ruas pouco iluminadas, em noites muito escuras, em que sair á noite era um martírio, sobretudo se a lua estivesse escondida algures por ter medo de alguma coisa que eu não sabia e que eu temia. Era nessas noites que eu recordava as histórias de bruxas, lobisomens e almas penadas. Qualquer ruído, qualquer calafrio trazia logo à imaginação a possibilidade de me cruzar com um lobisomen, ou de ser raptado por alguma bruxa voando na sua vassoura e com poderes para passar pelo buraco da fechadura.


Em plena década de cinquenta e, na aldeia, sem a luz eléctrica, as noites de lua cheia, deveriam ser as "melhores" alturas para alimentar estes personagens. Deveria ser arrepiante para as almas mais fracas e mais sensíveis.

As pessoas tinham medo do escuro, do envolvimento dos pinheiros, da suas própria sombra que por vezes pareceria estar viva e deslocar-se. Quantas vezes terão corrido no escuro a fugir da sua sombra... Que se transformava em monstros que pediam emprestada a sua voz aos pássaros nocturnos e aos ruídos que vinham das moitas e dos pinhais, tornando-os (aos monstros) muito mais reais.


Ora as bruxas que tinham pactos com o Diabo (vá de retro Satanás), que sacrificavam animais, que domavam os lobos, que voavam sentadas no cabo das vasssouras de giesta, que perseguiam as crianças, que entravam pelo buraco da fechadura para fazer maldades ou levar as crianças -supostamente para as iniciar, junto de um agrupamento no meio de um pinhal, à volta de uma fogueira-, podem apenas ter o objectivo de obrigar as crianças a não falar com estranhos, evitar sair da estrada a caminho de casa, ou dormir bem aconchegados para não apanharem frio, e obrigar a outros comportamentos. Mas já dizem os nossos vizinhos espanhóis: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!"

Essa era outra altura ideal para se falar de bruxas (salvo seja...), daquelas que se deslocavam montadas no cabo de uma vassoura mágica, faziam poções maléficas, envenenavam as pessoas ou as transformavam em sapos. A Benfeita era fértil em sapos gordos, enormes, nojentos... "almas penadas" que quase nos perseguiam, aos saltos, quando à noite fugíamos para o areal.

Por outro lado, os lobisomens eram pessoas normais durante o dia, nossos vizinhos, amigos, familiares até, mas que tinham um feitiço, sendo condenados a percorrer sete vilas encasteladas em noite de lua cheia entre a meia-noite e o amanhecer, sendo meio-homens, meio-lobo ou meio-cavalo ou meio-outro animal qualquer, no qual se transformavam à meia-noite. Ora, na nossa Gândara os lobisomens não teriam muito sucesso, porque percorrer sete vilas encasteladas, estando o único castelo da Gândara em Montemor-o-Velho, teriam de percorrer quase todo o distrito de Coimbra...

Outra história curiosa da qual me recordo é da "mulher do mel". Até há algumas décadas atrás a nossa região sofria de uma extrema pobreza, o que levou à saída de muitas pessoas para o estrangeiro. Os que por cá ficaram continuavam o seu árduo trabalho para ganhar o pão de cada dia, nem sempre muito, nem sempre abundante. Quando as mães levavam as crianças para a lavoura, levavam geralmente um pouco de pão ou broa, e algumas vezes uma peça de fruta. Quando a fome apertava, davam o pão ou a broa às crianças e diziam-lhe que a mulher do mel estaria para passar por lá, trazendo mel para colocar no pão. As crianças ficavam esperando, com a esperança da passagem da mulher do mel, e como o tempo passava, e a mulher do mel nunca chegava, acabariam por comer o pão ou a broa e assim "matar a fome".



Hoje, as bruxas e os lobisomens têm outros nomes, são outras coisas, aparecem noutras situações, são os sinais dos tempos.

Crenças, Rezas e Benzeduras

Até há bem pouco tempo as pessoas acreditavam que as rezas e as orações as podiam proteger dos mais diversos males. Algumas dessas crenças que nos moldaram:

  • bruxas, geralmente pessoas solitárias e antipáticas, que só querem o mal dos outros, voavam no cabo de vassouras e queriam levar os meninos;
  • lobisomens, que era o nome dado a uma criatura que em noites de lua cheia se transformava em lobo ou outro animal e vagueava à procura de alguém que pudesse atacar, tendo de visitar sete vilas encasteladas entre a meia-noite e o amanhecer. Por essa razão se dizia que não era aconselhável sair nessas noites;
  • passar debaixo de uma escada, traz má sorte, passar de novo, elimina a maldição;
  • gatos pretos;
  • quebrar um espelho, dava sete anos de azar;
  • olhar-se ao espelho à meia-noite em ponto, poderia ver-se o diabo (e nós eramos uns diabinhos);
  • trabalhar aos Domingos, para além de ser pecado, está gravado na lua, o homem que trabalhou ao Domingo ainda por lá anda e se consegue ver a partir da terra nas noites de lua cheia;
  • se tiverem mais histórias/crenças envim-me que as publicarei aqui.

As orações, rezas ou benzeduras, eram as soluções o tratamento de muitos problemas que afectavam os nossos antepassados.

Actualmente, ainda há quem acredite na força das benzeduras e orações, defumadouros e outros tratamentos para resolverem os seus problemas. O mais comum na nossa aldeia era sem dúvida o mau olhado. Havia a crença de que a maioria das pessoas colocavam o maiu olhado sem o querer, simplesmente tinham um olhar muito forte, outros era por inveja ou por maldade mesmo.


Mau Olhado


O mau olhado (quebranto) podia ser lançado sobre um pessoa apenas com um olhar algumas vezes de forma inconsciente, mas quase sempre por inveja ou por maldade. Este causava cansaço, sono, e sobretudo dores de cabeça. O efeito só desapareceria depois de muito descanso ou de rezas.

Oração (para tirar o quebranto)

Usar um prato com água onde se coloca uma pinga de azeite após cada reza (feita sempre em número ímpar). Se esta não se espalhar na água é porque a pessoa mencionada não tem quebranto, se se espalhar é necessário fazer (em número ímpar) a reza até sete vezes para controlar a dispersão do azeite até desaparecer (se possível) ou passarem as dores da pessoa.

A reza tem muitas variações, mas a da nossa região é mais ou menos assim:
(Benzendo-se) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

[Nome da pessoa] tu tens quebranto, dois te puseram, três te hão-de tirar. De onde este mal veio para lá torne a voltar em nome das três pessoas da Santíssima Trindade que é (benzendo-se) o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ámen. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Hoje e Amanhã: Freguesia da Sanguinheira festeja 25 anos (fotos)

Terminaram ontem os festejos do 25º Aniversário da elevação da Sanguinheira a freguesia. Para os que estão longe (e são muitos), e não puderam comparecer, aqui ficam algumas fotos das actividades do dia 3 de Julho. Para ver as fotos em tamanho normal basta clicar nelas.

 A peça de teatro com alguns artistas da Gesteira, que animou o público no fresco da noite.
 A actuação da fadista Gesteirense Suzi Silva, acompanhada à Guitarra Escouralense (ou Portuguesa) pelo mestre Manel Ribeiro, e à viola pelo Padre João Paulo Vaz.

E a actuação do Rancho Folclórico da Sanguinheira.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hoje e Amanhã: Freguesia da Sanguinheira festeja 25 anos

A Sanguinheira obteve o estatuto de freguesia a 3 de Julho de 1986, segregando-se então da freguesia de Cadima. O Decreto-Lei de 19 de Agosto de 1986 foi publicado no Diário da República e confirmou a Sanguinheira como nova freguesia.

Para assinalar o 25.º aniversário de elevação da Sanguinheira a freguesia, irão realizar-se diversas actividades e cerimónias de 3 a 10 de Julho:
  • 3/Jul, domingo, às 10H25, há eucaristia dominical, seguida, às 11H30, de romagem ao cemitério. A partir das 12H15 está agendada uma sessão solene no salão nobre da junta de freguesia para homenagear algumas figuras importantes da freguesia. Às 20H00 inicia-se a noite de variedades com artistas da freguesia, nomeadamente a Escola de Música do Centro Social de Recreio e Cultural da Sanguinheira, a Associação de Moradores das Pedras Ásperas e a fadista Suzi Silva (que por acaso é minha irmã) da Gesteira, acompanhada pelo mestre Ribeiro e pelo padre João Paulo Vaz.
  • 7/Jul, quinta-feira, às 22H00, baile com a teclista Anabela de Pombal.
  • 8/Jul, sexta-feira, às 23H00, baile com o Duo Tó Mané de Pombal.
  • 9/Jul, sábado, às 22H00, terá lugar o XX Festival de Folclore com organização do Grupo Folclórico da Sanguinheira, seguido, às 24H00, por desgarradas ao som de concertinas de Tiago Neto, Paulo Fragoso e a sua banda Lousã.
  • 10/Jul, domingo, continuação do festival de folclore, seguido de animação com o karaoke “Pancinhas”.

No recinto da festa funcionarão tasquinhas e quermesse com a colaboração do Centro Social Recreio e Cultural da Sanguinheira, a Associação de Moradores das Pedras Ásperas e a Associação de Moradores dos Carreiros.

Parabéns a toda a freguesia da Sanguinheira!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Hoje e Amanhã: Sons de primavera na Gesteira

Sons de primavera na Gesteira, gravado no dia 23 de Maio de 2011.
Spring sounds from Gesteira, registered on March 23rd, 2011.

domingo, 15 de maio de 2011

Baú da Gesteira: Os primeiros 100 anos trentinos da Gesteira

 Resumo de 100 anos de registos paroquiais de baptismo relativos à Gesteira. [1573-1673]

Primeiro registo de baptismo conhecido de pais residentes na Gesteira (ou Giesteira, na altura): 12 de Julho de 1626.


Total de crianças baptizadas durante o período de 1573 a 1673 de pais residentes na Gesteira: 28 (total de 2255 baptizados no couto de Cadima).

crianças do sexo masculinocrianças do sexo femininoilegíveis
9190

Durante esse período de 100 anos foram identificadas 84 referências ao lugar da Gesteira, sobretudo como local de residência/naturalidade dos pais dos baptizados, mas também como padrinhos desses e doutras crianças do couto.

A tabela seguinte apresenta os residentes na Gesteira, durante o período de 1573 a 1673 que foram padrinhos de crianças do couto de Cadima. O número de ocorrências apresenta uma maneira de avaliar quem eram as pessoas e famílias mais importantes na Gesteira naqueles 100 anos, por serem mais requisitados para padrinhos e madrinhas (obviamente também por serem familiares e/ou vizinhos), assim podemos distinguir as famílias Romião, Faim, Nicolau e Gomes.


No que diz respeito ao lugar de origem de crianças onde foram padrinhos residentes da Gesteira, esta deverá ser confrontada com a população existente nos diversos lugares do couto, mas também a distância desses lugares para a Gesteira.

Assim sendo, residentes da Gesteira, aparecem como padrinhos mais frequentes na própria Gesteira e na vizinha Sanguinheira.



Os padrinhos das crianças baptizadas na Gesteira durante aquele período eram moradores nas seguintes aldeias.
 


As famílias que existiam na Gesteira, e que baptizaram crianças entre 1626 a 1673 são as seguintes:
 


Para além destas famílias existiam pelo menos as famílias também mencionadas na tabela dos padrinhos originários da Gesteira (ver acima). Num período de cerca de 50 anos houve mais de 20 famílias na Gesteira, e isto numa altura embrionária da aldeia.



(Investigação a ser continuada quando o tempo o permitir)

sábado, 16 de abril de 2011

Baú da Gesteira: Curiosidades da nossa região

Esta curiosidade é sobre um antigo habitante do lugar do Rodelo, na freguesia de Cadima.

Na página 356 da Revista Universal Lisbonense - Tomo II do ano de 1842-1843 está descrita a seguinte notícia.
Transcrição:
"1520 No logar de Rodèllo, concelho de Cadima, comarca de Cantanhede - nos escreve o nosso amigo, o Sr. gonçalo Tello de Magalhães Collaço - ha um lavrador, chamado João Monteiro, de 103 annos de edade, que ainda lavra com os seus bois, lè, e escreve sem óculos, e gosa de todas as suas faculdades no melhor estado: come, e bebe bem, e anda direito e firme, como nos seus 50 annos. - Seu alimento tem sido sempre o usual de lavrador abastado. - E ainda ha poucos dias foi visto beber meio quartilho de agua-ardente em uma casa, aonde foi dar contas de um depósito: - de vinho tambem lhe não corta a cèpa."

Meio quartilho de água ardente são 0,175 litros!!!!


Pude confirmar que o dito João Monteiro faleceu em 24 de Maio de 1848, era viúvo de Maria Mendes! Se tivesse 103 anos em 1842/1843, terá falecido com 108 anos!

Um exemplo de longevidade e bom viver (ou bom beber)!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Baú da Gesteira: Os primeiros 100 anos trentinos da Taboeira


Resumo de 100 anos de registos paroquiais de baptismo relativos à Taboeira. [1573-1673]

Primeiro registo de baptismo conhecido de pais residentes na Taboeira (ou Taboeiras): 28 de Outubro de 1609.

Total de crianças baptizadas durante o período de 1573 a 1673 de pais residentes na Taboeira: 33 (total de 2255 baptizados na freguesia de Cadima).

crianças do sexo masculinocrianças do sexo femininoilegíveis
19131

Durante esse período de 100 anos foram identificadas 111 referências ao lugar da Taboeira, sobretudo como local de residência/naturalidade dos pais dos baptizados, mas também como padrinhos desses e doutras crianças do couto.

A tabela seguinte apresenta os residentes na Taboeira, durante o período de 1573 a 1673 que foram padrinhos de crianças do couto de Cadima. O número de ocorrências apresenta uma maneira de avaliar quem eram as pessoas e famílias mais importantes na Taboeira naqueles 100 anos, por serem mais requisitados para padrinhos e madrinhas, assim podemos distinguir as famílias de António Gonçalves, de Manuel Esteves e de Manuel António eram sem dúvidas as mais importantes daqueles 100 anos na Taboeira.


No que diz respeito ao lugar de origem de crianças onde foram padrinhos residentes da Taboeira, esta deverá ser confrontada com a população existente nos diversos lugares do couto, mas também a distância desses lugares para a Taboeira.

Assim sendo, residentes da Taboeira, aparecem como padrinhos mais frequentes da Fervença (bastante próxima e bastante populosa na altura), da Taboeira (das famílias importantes mencionadas anteriormente e por serem vizinhos/familiares), da Póvoa e da Guímera (também populosas na altura).
De referir que não existe qualquer padrinho ou madrinha residente na Taboeira para crianças do lugar do Zambujal, um dos mais populosos daquela época, talvez dada a distância (mais do dobro das outras localidades) e talvez também pela distância social que existia então entre os habitantes da Tabeira e lugares juntos e o Zambujal que fica nos limites do couto de Cadima, bem mais próximo de outros coutos (Outil, por exemplo) do que propriamente as localidades do couto de Cadima.

Aqui fica este artigo como pequena contribuição para o Grupo de Jovens da Taboeira, que levam a cabo um projecto interessante: "Á Descoberta das Origens da Taboeira" - ADOT.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Flora da Gesteira: Míscaros

Na Gândara, dá-se o nome de míscaros a alguns cogumelos das espécies Tricholoma, que brotam nos solos arenosos dos pinhais, geralmente após as primeiras chuvas de Outono.


Na Gesteira, durante muitos anos, os pinhais "produziam" estes cogumelos aos milhares. Hoje, já é muito dificil encontrar tais míscaros nos areais de pinho da aldeia.


Referência das Imagens: Guía de Campo de Cogumelos Silvestres, Federação dos Produtores Florestais de Portugal, Lisboa, Fevereiro de 2008.

domingo, 20 de março de 2011

Flora da Gesteira: Já cheira a primavera

A primavera já está à porta, mas já se sentem os cheiros, já se notam as cores.
Estas fotos são de 19/03/2011, de terrenos nas Cassacas, Gesteira, num maravilhoso dia de Sábado.


Até parece que nevou na Gesteira, mas a verdade é que estas Margaridas aquecem o nosso coração e lançam um cheiro delicioso no ar.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Baú da Gesteira: Chico Maricato

O Sr. Luís de Jesus, de Aljuriça, publica mensalmente uma crónica cultural denominada Catina Mundi. Catina era o nome romano da Cadima, e o nosso autor é ainda a face da casa do México em Aljuriça.

No boletim de Fevereiro o Sr. Luís de Jesus faz referência a uma personagem Gesteirense, com certeza conhecida de muitos de nós ainda:

O número de pobres que vagueavam pelas aldeias  e feiras quinzenais e mensais de Cantanhede, Arazede, Tocha, Guímera e Portomar era numeroso, recebiam tostões, boroa cheia de bolor e sobras de comida. Nas feiras não faltavam  ceguinhos badalando literatura de cordel , guiados por um moço. Como a maioria dos mendigos não tinha família, eira nem beira, dormitavam em cabanas, palhotas e casitas abandonadas. Dos pobrezinhos que conheci, vindos de várias terras gandarezas , recordo o  Chico Maricato ”o  filósofo andante” que tinha como companhia um cão rafeiro. Oriundo do lugar de Gesteira, ainda que não soubesse ler nem escrever, sabia conversar  com tino e leveza. O Chico Maricato deixou este mundo cruel a finais dos anos 90. Morreu na Praia da Tocha, junto ao mar. O seu fiel amigo permaneceu  junto do cadáver.

O ti Chico Maricato é apenas mais uma das personagens Gesteirenses que fica para a história e que representa a dualidade desta terra.

sábado, 12 de março de 2011

Baú da Gesteira: As "nossas" guerras II

Vocês sabiam que durante a II Grande Guerra a nossa aldeia teve uma pequena ligação à Guerra? Eu não sabia...
Apesar do governo português se manter "neutro" nas acções beligerantes e não participar na Segunda Guerra Mundial, houve actividades na Gesteira (e com certeza em muitos outros locais de Portugal) que contribuiram para o desenrolar da Guerra.

Soube, de fontes confiáveis, que se cozeu broa, por diversas vezes, em fornos da Gesteira, para a alimentação dos soldados Alemães.
A broa é um alimento importante não só pelo seu valor nutritivo mas também porque se mantém "fresca" durante algum tempo.
Como a broa chegava à França ou à Alemanha ainda não se sabe, mas que a broa da Gesteira foi alimentar os Alemães parece não restar dúvidas.

Parece um wikiLeaks da Gesteira ;)

Cultura: A salgadeira

Bom dia! Hoje decidi escrever sobre umas tradições particulares da nossa região, e de outros locais do nosso país.  Como tudo o que é tradição esta também está em vias de extinção, mas durante muitos anos foi prática comum nas casas gandaresas. Trata-se da salgadeira! 

A salgadeira era uma arca de madeira, normalmente construída sobre 4 pés para evitar húmidades, e com duas divisões: uma para a carne, outra para o peixe.


Como se pode ver nestas fotos (salgadeira antiga desenhada e construída por um grande carpinteiro da Gesteira, o ti Emídio Tabanez), a divisão não era equitativa. Com a tradição e hábito da matança do porco, uma grande parte (cerca de 80%) da salgadeira era reservada para a carne (sobretudo de porco) e o restante para o peixe, que apesar da proximidade do mar, era consumido em muito menos quantidade. A arca das fotos tem pouco mais de 1m de comprimento, uns 40 cm de largura, e uns 60 cm de altura. A tampa fechava por fora da arca para evitar entrada de poeiras, insectos, etc, e para fechar bem a arca.


Esta "arca frigorífica antiga", que se enchia de sal, permitia guardar a carne para consumo. O sal fazia a conserva, da mesma forma que se utilizava o toucinho derretido para se guardar febras e costelas e o azeite para conservar alguns enchidos depois de retirados do fumeiro!
 Geralmente, a disposição da carne ou do peixe era efectuada por camadas, colocando-se camadas de sal, depois camadas de carne (ou peixe), e nova camada de sal. O sal conservava, limitando a entrada de ar, secando a carne, e afastando as pragas de insectos e roedores. Esta tradição ainda durou muitos anos, pelo menos até à chegada a electricidade à Gesteira ( o que ocorreu há pouco mais de 60 anos) e apenas quando os frigoríficos e arcas frigoríficas começaram a entrar nas nossas casas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cultura: Origem da denominação "Aldeia"

Encontrei num livro bastante interessante, "Glossario de Vocabulos Portuguezes, Derivados das Linguas Orientaes e Africanas, Excepto a Arabe", por D. Francisco de S. Luiz, Bispo reservatario de Coimbra, livro de 1837.

Este livro apresenta mais de uma centena de páginas com uma descrição da origem de bastantes palavras portuguesas, de origens Gregas, Persas, Hebraicas, Africanas, e outras, demonstrando mais um vez a riqueza do Português.

Como a Gesteira é uma aldeia, apresento aqui a origem do vocábulo "aldeia":

Sem surpresa, a palavra "aldeia", passou da "terra dos pêssegos" (Pérsia) para o Árabe, e daí para o Português.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Baú da Gesteira: Barracos de madeira

Num dos livros que estou a ler neste momento vem um pouco da descrição da "nossa" região.
Na página 46 do livro "História de Portugal", Vol. 1: Antes de Portugal, coordenado pelo Dr. José Mattoso, Editora Estampa, vem o seguinte texto:
"Entre os povoamentos mais recentes deve destacar-se o das areias do Oeste, entre Aveiro e a Figueira da Foz, que, de início, era formado por povoações temporárias, de «barracos» de madeira, construídas e ocupadas por gentes do interior e que aí se instalavam temporariamente para a pesca de Verão; pouco a pouco foram permanecendo ao longo do ano, acabando por constituir povoações fixas, dependentes da pesca e de alguma agrícultura de sobrevivência, possibilitada pela «colonização» das areias pelos sargaços - uso tão importante e antigo que já aparece regulamentado em foros da Idade Média. A partir da década de 60, com o surto do turismo, foram transformadas em estâncias de veraneio, já sem qualquer pitoresco e pejadas de gente. De todas estas povoações, a mais importante, tanto quanto era um singular aglomerado de casas de madeira, com dois e três andares, construídos sobre estacas, como actualmente, em que delas já nada resta, é, sem dúvida, Palheiros de Mira, hoje Praia de Mira, pelo desenvolvimento que atingiu e pelo movimento que regista no Verão. No conjunto, o litoral oeste, que representa cerca de dois terços da extensão total da costa, é rectilíneo e exposto quase todo o ano aos ventos dominantes de oeste."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

1º Aniversário do Blog da Gesteira

Foi a 6 de Fevereiro de 2010 que lancei o primeiro grão de areia na engrenagem da internet.
O objectivo era de dar a conhecer melhor a nossa terra, mas sobretudo de juntar as nossas gentes e de não deixar cair no esquecimento aquilo que nos fez, e aqueles por estas areias passaram, que nelas nasceram, viveram, morreram, que nelas foram felizes e que nelas sofreram.
Com quase 3400 visitas em 1 ano, e com vários contactos que tive, dos mais diversos cantos do mundo, penso que o meu objectivo está a ser cumprido.
Agradeço a todos os que me enviaram e-mails, a todos os que foram comentando os artigos, e espero que o continuem a fazer durante o próximo ano. A minha promessa é continuar a aprender (sobretudo convosco) e partilhar aquilo que vou descobrindo.
Mais uma vez relembro que quem quiser contrbuir com informações, fotos, ou outros assuntos de interesse da nossa região, que me contactem.
Parabéns ao nosso blog! E obrigado!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Hoje e amanhã: Carlitos

Saíram destas terras Gandaresas muitas personagens, umas com mais impacto no Universo que outras. Hoje venho apresentar uma personagem actual, o Carlitos, jogador de futebol da Naval 1º de Maio (SuperLiga Portuguesa).

Carlos Pereira Rodrigues nasceu a 5 de Dezembro de 1981, é "natural" da Gesteira, e antes de rumar à Naval jogou na União Desportiva da Tocha.

O número 7 da Naval está no clube desde a época 2001/2002, é Defesa Direito e joga na SuperLiga Portuguesa desde que a Naval subiu à 1ª (2004/2005).
Carlitos faz parte da "espinha dorsal" da Naval, sendo títular na equipa.

A ficha do Carlitos no site da Naval pode ser vista AQUI.

O valor do Carlitos no site Transfermarkt por ser conferido AQUI.

Parabéns a este Gesteirense pela sua carreira!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Cultura: Lenda de Cadima

Conforme relatam velhos pergaminhos, há muitos e muitos anos, não muito longe da cidade de Coimbra, existia um terreno arenoso coberto de pinheiros que, pouco a pouco, foi povoado por um grupo de homens trabalhadores. Entre esses homens distinguia-se André, um rapaz alto, forte, de belas feições e de franco sorriso. Amava a sua terra, a sua mãe e o seu trabalho. Por esse motivo ele era respeitado pelos demais companheiros. Mas, um dia, algo veio alterar essa paz de espírito. Àquela terra acabava de chegar, vindo não se sabe de onde, outro grupo de homens e mulheres, entre os quais um velho e uma rapariga. E tudo mudou. Até André já não parecia o mesmo. Entrava em casa silencioso. Comia em silêncio e deitava-se sem quase dar uma palavra àquela que lhe dera o ser e com quem tagarelava, outrora, tanto!
Não podendo conter-se, certa tarde, a mãe de André quis meter o rapaz a confesso. Com cuidado e carinho ela indagou:
— Meu filho! Que estás vendo dentro da tigela do caldo? Olha que o deixas esfriar!
Ele acusou o toque. Mostrou-se embaraçado, tentou reagir, mas em vão. E confessou:
— Ando preocupado, mãe!
Ela sorriu-lhe docemente.
— Eu sei, André! As mães sabem sempre tudo, mesmo quando os filhos têm segredos para elas...
O rapaz abanou a cabeça.
— Não tenho segredos para si, mãe! Desde que o pai morreu, a mãe é toda a minha razão de trabalhar!
Maliciosamente, ela retorquiu:
— ... Mas já não sou todo o teu pensamento!
André olhou-a, apreensivo.
— Mãe! Não pense que...
— Eu sei, meu filho. Não és só tu que vives a pensar nessa mulher. Eu bem oiço os outros! E bem oiço, também, como as outras mulheres a temem.
O rapaz olhou a mãe de frente, pela primeira vez desde que a conversa começara.
— Temem-na... porquê?
— Até eu a receio, André! Quem é ela? Donde veio? Que faz aqui, neste nosso cantinho, quando a terra é tão grande?
As sobrancelhas de André franziram-se, num sinal de arrelia ou desgosto.
— Ela não faz mal a ninguém! Poucos são capazes de a ver e nenhum ainda lhe chegou à fala!
— Precisamente por isso. É estranha, essa mulher. Acredita, filho! O meu coração anda muito pequenino, muito medroso dentro do meu peito!
De novo o ar de interrogação magoada.
— Medroso? Mas porquê?... É certo que também a acho estranha...
Era arrastada, agora, a sua voz. O olhar perdia-se sobre a mesa. A mãe fitava-o, inquieta. E ele continuava, numa divagação:
— Estranha e linda!... Miraculosamente linda!
Foi a vez da mãe de André o interromper:
— Linda? Nem por isso, meu filho. Apenas tem nos olhos qualquer coisa que me aflige…
André olhou a mãe com entusiasmo.
— Já reparou nos olhos dela?... Parece que chamam por nós! E não sabemos resistir a esse chamamento!
Soturnamente, a mãe de André comentou:
— Até parece obra do Demónio!
Ele afligiu-se.
— Por Deus, mãe, não diga isso! Não calcula o mal que essas palavras podem causar-me. Ando quase louco. Quase louco!...
— Filho, meu filho, toma cuidado!... É a tua mãe que te pede!
Ele abanou a cabeça e, com um gesto brusco, pôs o caldo de lado, enquanto dizia:
— Tenho de falar com ela! Tenho de saber quem é! E já! Já!
Levantou-se e saiu apressado, quase correndo, a caminho do local onde aquela estranha gente levantara a sua tenda. À medida que se ia encontrando com os outros habitantes do lugar, estes, que o consideravam como um chefe, olhavam-no boquiabertos, ou persignavam-se, tal o desatino em que ele corria agora para se encontrar com a bela desconhecida.
Chegou breve ao seu destino. Estacou. E o seu olhar traduziu o enleio do seu coração.
De pé, encostada a um pinheiro, olhos perdidos no horizonte, corpo esbelto coberto por uma túnica, cabelos soltos ao vento, ela ali estava, como se o esperasse já!
André resolveu aproximar-se. Devagar. O coração batia-lhe violentamente no peito. O olhar da jovem desconhecida pousou sobre o seu rosto e ali ficou, fixo no olhar de André, até o ver bem junto dela.
Atarantado, ele formulou uma desculpa:
— Perdoa-me, se venho molestar-te!
Numa voz bonita e profunda, ela respondeu, com um leve sorriso:
— Há muito que te esperava. Porque resististe assim?
Ele olhou-a de novo, com excitação, antes de confessar:
— Tu amedrontas-me! Quem és? Donde vieste?
A voz da jovem adoçou-se mais.
— Sou Cadima e nem sei donde venho! Perdi minha mãe à nascença e ando a vaguear com meu pai e com os seus companheiros, de terra em terra. Para eles, não há distâncias, nem fronteiras. Parece que o mundo inteiro lhes pertence! E são felizes, à sua maneira. Eu não. Às vezes, sinto-me cansada!
O olhar e a voz de André brilharam de ansiedade.
— Queres dizer... que partirás daqui... qualquer dia?
— Eles assim o querem!
— E tu?
— Eu...
Ela hesitou. Olhou-o intencionalmente e decidiu-se a terminar o seu pensamento:
— Se tu quiseres... ficarei para sempre na terra onde habitares.
André sentiu-se reanimar. O entusiasmo deu-lhe novo brilho ao olhar e mais alento à voz.
Cadima! A tua expressão parece-me sincera. Mas não tentes iludir-me! Tu já deves saber o que se passa: os homens amam-te tanto quanto as mulheres te odeiam!
Ela acenou ligeiramente com a cabeça, em sinal afirmativo. André continuou, agora com menos excitação:
— Por mim... deixei de ser o mesmo desde que desceste à nossa planície, outrora tão tranquila!
Cadima sorriu, enleada, olhando a paisagem que a rodeava.
— E quão belo é tudo isto! Aqui, tenho experimentado sensações diferentes. Sinto-me outra. Chego a ter medo de certas frases de meu pai e noto agora que um sentimento estranho me obriga a pensar constantemente em ti.
Houve um curtíssimo silêncio, que ela logo quebrou:
— Chamas-te André, não é verdade?
— Sim, chamo-me André. Já não tenho pai e sou o amparo da minha mãe. Não queiras, portanto, aniquilar a minha vida por um simples capricho. Seria capaz de matar-te, se tal fizesses!
Cadima sorriu. Um sorriso estranho, que quase a iluminava.
— Nada temas, André. Só te quero a ti. Só tu me agradaste. Diz uma palavra e ficarei contigo!
Ele olhou-a, perplexo.
— Uma palavra?... E que desejas que te diga?
— Que na verdade me amas. Por mim, e não pelo mistério que se estende à minha volta.
André vincou as unhas nas palmas das mãos, a refrear o impulso que o levaria a encher de beijos as mãos brancas de Cadima. A sua respiração fazia-se alta. Houve um momento sem palavras e, por fim, André perguntou ansiosamente à jovem desconhecida:
— Serás capaz de respeitar e amar a minha mãe?
Ela olhou-o com ternura. Uma ternura imensa no seu olhar de fogo.
— André! Eu nunca soube o que era ter mãe. Até essa felicidade tu me darias!
A alegria de André subiu ao auge.
— Minha doce Cadima! Eu julgo-me no Céu! Vem comigo. Quero apresentar-te àquela que me deu o ser e tanto trabalhou para que eu me fizesse um homem, minha Cadima!
A jovem estremeceu. André pegara-lhe num dos braços. Ela libertou-se suavemente do jugo dos dedos de André. Na sua voz surgiu algo de pesado e triste:
— Agora, não. Meu pai está a chegar. Pressinto no meu peito que algo de grave ou grandioso irá acontecer. E é preciso que tu não estejas presente!
André mostrou-se contrariado.
— Continuas misteriosa! Porque não te abres comigo, se é certo que já me pertences pelo coração?
Ela soltou um fundo suspiro. Antes de responder olhou a terra amarelada, os pinheiros de agulhas verdes, com que brincava o vento. Escutou o seu murmurar, como ondulação de oceano. E só depois se decidiu a falar.
— André! Ouve isto que é necessário que saibas: para poder pertencer-te... terei de desligar-me completamente de meu pai.
Ele surpreendeu-se:
— Desligar?
— Sim. Não me perguntes mais nada!
— E... serás capaz disso?
Cadima olhou-o novamente nos olhos. Ele viu lágrimas a tentarem invadir o rosto bonito da jovem e sentiu-se enternecer. Mas já ela lhe falava, numa voz cheia de suavidade e tristeza:
— André! Tenho visto várias vezes tua mãe entrar na capelinha e rezar. Pois vai depressa e pede-lhe que reze também por mim!
As últimas palavras já foram ditas com a invasão das lágrimas. Cadima chorava. Chorava silenciosamente e ele sentiu-se enlouquecer.
— Não! Não quero ver-te chorar! Se soubesses como me doem as tuas lágrimas! Que te aflige? Conta-me tudo!
Ela abanou a cabeça negativamente e disse, num murmúrio:
— Vai. Vai depressa, André. Vai ter com a tua mãe e que ela não se esqueça de orar por mim!
E como o rapaz ficasse imóvel a olhá-la, ela tornou, agora com firmeza:
— Vai depressa, se queres salvar-me!
André não quis ouvir mais. Voltou para a povoação, com o peito opresso por um estranho, trágico pressentimento. Correu, tal como correra para ir ao encontro de Cadima. Quando a mãe o viu de volta, foi ao seu encontro. E os dois, sozinhos, ficaram falando dessa estranha visita de André à tenda da bela desconhecida...
 
Entretanto, na planície arenosa, o pai de Cadima aparecia. Vinha apressado e mal viu a filha ordenou, de modo imperioso:
Cadima! Vamos partir imediatamente!
Ela sobressaltou-se.
— Para onde, meu pai?
— Para onde deseja aquele que me governa!
Pela primeira vez ela sentiu forças para perguntar.
— E quem é esse que o governa?
O pai olhou-a de frente, num sorriso mau.
— Ainda não compreendeste? Contra ele nada poderás! Ele ouviu a tua conversa de há pouco. Foi ele que me mandou aqui. Apressa-te, pois! Vamos trabalhar para outra terra.
Muito pálida, Cadima tentou mostrar-se enérgica.
— Trabalhar? Chama a isto trabalhar? Pois saiba que estou farta de causar desordens, assassínios e suicídios! Os meus olhos espalham a morte e a desolação! Para que se servem de mim? Eu não quero, ouviu bem? Não quero!
O velho gritou:
— És minha filha! Pertences-me!
— Pois deixarei de pertencer-lhe!
O homem rangeu os dentes.
— Que estás dizendo? Neste momento também ele te ouve e não consentirá que nos deixes!
Cada vez mais trémula mas tentando reagir, Cadima exclamou:
— Ele nada pode contra a Cruz!
O velho horrorizou-se.
— Cala-te! Não pronuncies essa palavra!
— É a única que me poderá trazer a salvação!
A raiva do velho continuava em crescendo:
— Matar-te-ei, se pensares ficar aqui!
Cadima olhou em volta com ternura e os seus olhos beijaram em pensamento a bela paisagem. Depois respondeu, serena:
— Prefiro a morte a ser escrava do seu senhor! Neste momento, alguém pede por mim. Sinto novas forças a alentar a minha alma. Parta, parta sozinho, se quiser continuar ao serviço do mal! Eu conheci o amor... e por ele me quero salvar!
O homem fitava-a agora com estranheza.
— Reconsidera, Cadima! Vais perder-te!
— Não se perde quem ama!
Mais sereno, o pai tornou:
— Também eu conheci um dia o amor! Foi desse amor que tu nasceste. Mas ela... foi morta por ele... e eu continuei pelo mundo fora. Já não tenho salvação e não ouso ficar sozinho!
Animosa, Cadima tentou ajudá-lo.
— Encha-se de coragem, meu pai, e renegue-o também!
Os olhos do homem faiscaram e a sua voz voltou a ficar rouca de furor.
— Cala-te, filha ingrata! Tens de partir comigo!
Cadima assustou-se. E gritou também:
— Não quero! Não quero partir! Ficarei aqui nesta terra abençoada!
Ele troçou no meio da cólera.
— Abençoada? Esta é terra onde impera a areia e falta a água para dessedentar os homens!
Cadima não se deixou vencer. Retorquiu:
— Esta terra será fértil e dará de beber aos que tiverem sede!
Nesse momento, um enorme trovão se ouviu e a terra tremeu assustadoramente. Cadima fez-se pálida. Então, o pai da jovem desconhecida apontou na sua frente.
— Olha, Cadima. O meu senhor está ali! Vem ao teu encontro. Não queiras perder-te, nem perder o único homem que dizes ter amado!
Sentindo uma força interior, Cadima exclamou, enérgica:
— Afasta-te, poder do mal! Eu te renego!
O velho enfureceu-se.
— Louca! Ainda conseguirás desgraçar-me! Se lhe fugires, levarás a desgraça contigo e ela alastrar-se-á àqueles para quem, neste momento, vai o teu coração!
As lágrimas voltaram a aflorar aos olhos da rapariga. Havia uma enorme tristeza estampada no seu rosto. O velho sorriu, julgando ter vencido. A poucos passos, um homem de olhar estranho fitava-a, tentando subjugá-la. Mas Cadima, elevando os olhos ao céu, deixou que as lágrimas corressem livremente pelo seu rosto, e sem medo proferiu este estranho pedido:
— Se o mal que eu causei aos outros, se os crimes que fui obrigada a cometer puderem ser redimidos pela renúncia à minha felicidade na terra, que eu nunca mais veja André! Que ele se transforme num homem poderoso e feliz e que eu — livre finalmente das trevas — possa ver a Deus no Céu!
Nesse mesmo momento, o Demónio correu para ela para a agarrar.
Mas, antes que pudesse alcançá-la, a terra abriu-se como por encanto e Cadima desapareceu. E no lugar onde ela estivera, duas fontes brotaram da terra, jorrando água de um metro de altura.
Numa praga, o Demónio desapareceu também, levando consigo o velho.
O cantar da água fez-se ouvir em breve, deixando as gentes estupefactas.
Acorreu toda a povoação para observar tão estranho fenómeno. André e a mãe também vieram. Com grande espanto do rapaz, Cadima e a sua tenda tinham desaparecido!
Alucinado, André começou a chamar:
Cadima! Cadima, onde estás? Para onde te levaram?
Então o barulho da água acalmou e ouviu-se um sussurro:
— Estou aqui... na água que brota da terra!
André olhou a mãe. Parecia louco. Os olhos arrasaram-se de lágrimas.
Cadima! Porque me fugiste?
O sussurro voltou a escutar-se:
— Fugi-te para bem da minha alma e teu proveito, já que foste o meu grande amor!
André caiu de joelhos sobre a terra, chorando e dizendo:
— Nunca mais verei os teus olhos?
Ouviu-se de novo a voz de Cadima:
— Os meus olhos estarão sempre presentes nesta terra onde tu habitas. Eu to prometi! Ficarei aqui contigo. E os meus olhos aí estão transformados nessas fontes que darão de beber aos que tiverem sede!
André voltou a dizer alto, no meio da sua dor:
— Mas como poderei viver sem ti?
Na voz da água cantante, Cadima fez-se ouvir pela última vez:
— Viverás sem mim enquanto Deus quiser! Depois, virás ter comigo, e na nossa frente, então, ficará uma vida eterna!
André beijou a terra que a água cobria. E prometeu:
Cadima! A esta terra que eu vim habitar e que tu, com os teus olhos, tornarás fértil, daremos o teu nome — Cadima — em recordação da tua passagem por aqui! E até que Deus queira, aqui virei todos os dias para te ouvir, já que não te poderei ver!
E a água, deslizando na terra, veio acariciar-lhe os olhos, os lábios, as mãos!...
 
Os tempos passaram. Séculos e séculos em procissão. Pois ainda nos nossos dias, nos campos que hoje pertencem ao lugar de Fervença, na freguesia de Cadima, lá está uma das fontes a que chamam «os olhos de Fervença» e que outrora eram chamados «os olhos de Cadima».
Fonte: MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 301-308